João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 12 de julho de 2017 às 00:01

O que Putin tinha a ganhar com Trump

As revelações sobre o encontro de uma advogada russa com o filho mais velho de Trump e os principais operacionais da sua campanha presidencial adensam as suspeitas sobre os contactos entre o milionário e o Kremlin.

Ainda antes de Trump assegurar a nomeação, em Março de 2016, circulavam entre republicanos e democratas dossiês (sobretudo o compilado pelo ex-agente britânico do MI6 Christopher Steele) sobre relações tidas como comprometedoras do milionário nova-iorquino com empresários e políticos russos.

 

A divulgação em Julho pela Wikileaks de e-mails do Comité Nacional Democrata obtidos por "hackers" russos lançou o alarme sobre uma campanha concertada pelo Kremlin para prejudicar Hillary Clinton e levaram Barack Obama a ameaçar retaliar contra Moscovo.

 

O único acto público de retaliação foi consumado após a eleição de Trump quando Obama, no final de Dezembro, expulsou 35 diplomatas por espionagem e encerrou duas estâncias de recreio da embaixada da Rússia.

 

Os serviços de informação de Washington publicitaram a 6 de Janeiro, num comunicado do director nacional de Informações, a conclusão de que Putin ordenara pessoalmente uma campanha para prejudicar a campanha eleitoral de Clinton e "minar a confiança pública no processo democrático nos Estados Unidos". 

 

Antes e depois da tomada de posse a 20 de Janeiro, Trump rejeitou as conclusões dos serviços de informação, enquanto os polémicos contactos com Moscovo degeneravam em demissões - Michael Flynn, conselheiro de Segurança Nacional, e James Comey, director do FBI - e numa escalada de ameaças e pressões.

 

Acumularam-se declarações, esclarecimentos, precisões, desmentidos, rectificações erróneas, parcelares ou contraditórias da Casa Branca e de colaboradores do Presidente sobre contactos com representantes oficiais, empresários ou agentes de influência de Moscovo.

 

A reunião a 9 de Junho, na Trump Tower, de Donald Trump Jr., o seu cunhado Jared Kushner e o director de campanha Paul Manafort com a advogada Natalia Viselnitskaia, alegadamente na posse de informações oficiais russas prejudiciais para Clinton, confirma a incúria, irresponsabilidade e amadorismo de Trump e as suas gentes.

 

Os inquéritos em curso do Congresso e de Robert Mueller, conselheiro especial do Departamento de Justiça, são actualmente um dos principais factores a acentuar a desorientação na Casa Branca e a comprometer o Presidente em actos que podem chegar a ilícitos graves como obstrução à justiça.

 

Para o Kremlin tudo isto é um pau de dois bicos e exemplo dos resultados ambíguos de uma política bastante ostensiva de interferência.

 

Após 1991, Washington, encerrada a presidência de Boris Iéltsin, evitou actos clamorosos de pressão em processos eleitorais na Rússia, mas Putin arriscou interferências claras ao ver aproximarem-se os últimos anos de Obama e mesmo em estados da UE não hesitou em conceder apoios financeiros e políticos (caso de Marine Le Pen) de retorno incerto.  

 

Conseguida a derrota de Clinton, que fracassada a tentativa de aproximação a Moscovo iniciada em 2009 acabara por seguir como secretária de Estado até 2013 uma política de confronto com Putin, a vitória em Novembro de Trump ficou longe de levar a um apaziguamento nas relações com a Casa Branca.

 

Trump revela-se demasiado imprevisível, aventureiro, e qualquer concessão que faça a Moscovo gera internamente, mesmo entre políticos republicanos, suspeitas de conluio.

 

A política externa de Washington está, por sua vez, refém das crises pessoais e desvarios do Presidente, e os Estados Unidos perdem credibilidade entre aliados e estados parceiros, o que o Kremlin não deixará de considerar de sua vantagem.

 

O grande óbice é escassear razoabilidade e política consequente com Trump e não se saber o que esperar, excepto o pior.

 

Por aqui as contas saíram furadas a Putin ainda que os Estados Unidos e o mundo tenham perdido muito mais.     

 

Jornalista

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comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

... É uma vergonha o presidente dos EUA ser uma marioneta dos comunas de caviar da Rússia... volta https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Edgar_Hoover Fazes cá tanta falta...

surpreso Há 1 semana

A campanha anti-Trump ,a propósito dos contactos do Trump jr, fica esvaziada com a abertura voluntária do seu conteúdo.Tenham vergonha!