André Macedo
André Macedo 05 de novembro de 2017 às 20:45

O que quer António Costa?

Hoje eu poderia escrever sobre o Urban, os riscos da noite lisboeta ou então voltar ao juiz de barbas bíblicas que fez um gigantesco camelo passar pelo buraco da agulha e sair em forma de acórdão medieval.
Poderia, sim. Estivéssemos em agosto e seria até compreensível um ângulo mais leve, sem esquecer que poderia arrastar para Portugal o fálico problema do assédio sexual em contexto profissional que começou nos Estados Unidos, já atravessou o Atlântico até ao Reino Unido, com uma demissão de um ministro pelo meio, e aposto que também vai andar por cá mais cedo do que tarde.

Mas bem vistas as coisas estamos ou deveríamos estar na época alta do Orçamento do Estado. Olhando para a última década, numa vi tanto desinteresse coletivo. Nem os deputados conseguiram disfarçar o aborrecimento durante os dois dias de debate na Assembleia da República. A reforma política da Pedro Passos Coelho e o engavetar – a meu ver precoce – do passismo explicam a falta de chispa. Um PSD a mudar de pele e até de rumo ideológico não ajuda mesmo nada à clarificação do confronto. Pior ainda quando até Rui Rio se define como mais próximo do centro-esquerda, embora diga que sempre fez alianças à direita, ao jeito daqueles jogadores de basquetebol que olham para um lado e passam a bola para o outro. Será este o caso?

Apesar desta fadiga orçamental nacional que se justifica também porque há dinheiro a distribuir entre quase todos os portugueses e por isso nenhuma indignação no ar – ao ponto de serem francamente ridículas as manifestações que o PCP se esforça em arregimentar para sobreviver –, na verdade fora da Assembleia da República alguns gestores das maiores empresas nacionais e também um punhado de empresários vociferam, embora em surdina, contra os planos e métodos do Governo.

Dizem que o país está refém do Bloco de Esquerda e do PCP. Dizem que não basta aumentar o consumo interno para melhorar o clima económico e dar-lhe lastro e caminho para andar. Acusam, por exemplo, o secretário de Estado da Energia de estar a rebentar com o setor através de contribuições extraordinárias que se prolongam no tempo ao contrário de todas as outras decisões da troika, decretos-leis com bizarro alcance retroativo, proibições sobre a construção de novas barragens e uma indefinição gritante sobre a exploração das energias renováveis, designadamente sobre a regulação de novos investimentos e a necessária substituição dos antigos.

Acontece o mesmo na Saúde ou no Ministério da Agricultura, onde novamente uma agenda dominada ou muito condicionada pelo BE e PCP, dizem os empresários, está a afogar os projetos sem que haja avaliação, debate e um plano organizado para os próximos anos. Não é apenas a indústria do eucalipto que se queixa do contexto hostil. Se excluirmos as empresas de grande consumo e distribuição, além da suruba que envolve o imobiliário – da construção à venda, passando pelos bancos (lá vamos nós outra vez pelo mesmo caminho...) –, na realidade o país não tem real condução económica. Tem o Web Summit e a propaganda que se se segue. Tem um clima de adormecimento coletivo e auto-satisfação. Mas é francamente pobre. Depois de repor a normalidade – um mérito relevante –, António Costa tem agora o dever de dar um novo impulso ao país. Para onde nos quer levar o primeiro-ministro? 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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