Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva 04 de setembro de 2017 às 13:30

O que vai fazer Marcelo com o poder?

Nenhum cargo é tão moldado pela personalidade de quem o ocupa como o de Presidente da República.

Nenhum cargo é tão moldado pela personalidade de quem o ocupa como o de Presidente da República. Foi assim com Eanes, com Soares, com Sampaio, com Cavaco e, agora, com Marcelo. E tal como Soares, Marcelo é uma personalidade singular, que se projeta no mandato que exerce. Uma parte fundamental da sua popularidade resulta das suas idiossincrasias: o controlo absoluto do espaço mediático; a predisposição ímpar para contactar com as pessoas; a sociabilidade que o aproxima dos portugueses, independentemente da classe social. Os portugueses voltaram a ter em Belém alguém que conhecem e o poder presidencial foi dessacralizado. Popular sem ser populista, de direita mas capaz de abrir ao centro e até à esquerda, com gravitas mas sem cultivar a distância, professoral sem perder a simplicidade, a personalidade de Marcelo parece talhada para o cargo de Presidente. Claro está que o contexto faz diferença: Marcelo sucedeu a Cavaco e tem beneficiado do contraste com o seu antecessor. Resta saber se Marcelo será capaz de gerir os riscos associados ao excesso de personalidade no exercício presidencial.

Há, no entanto, para além da personalidade, um efeito político mais vasto no entendimento que Marcelo tem tido do seu mandato. A Presidência dos afetos torna-o popular, mas, fundamentalmente, contraria a crise de legitimidade que alastrou sobre as instituições do regime. Em importante medida por força da crise económica, a descrença nos atores e nas instituições políticas acentuou-se em Portugal. Com o virar de página da austeridade e com um Presidente afetuoso, de certa forma, o regime foi resgatado da crispação política e social que marcou os anos de chumbo da troika.

Quer Costa, quer Marcelo intuíram bem o novo tempo: sendo política e ideologicamente distintos, convergem num entendimento realista dos seus mandatos - perante bloqueios estratégicos, ambos escolhem invariavelmente caminhos taticamente viáveis, formando um bloco central de palácios que compensa os entendimentos parlamentares à esquerda. O poder de Marcelo está também na forma como recentra o sistema político português a partir de Belém. Até onde irá nesse objetivo permanece uma incógnita.

Mas Marcelo é e será sempre um homem de direita. Paradoxalmente, muito popular e aparentemente imbatível eleitoralmente, ao mesmo tempo que faz parte de um setor da direita em declínio. Numa altura em que a direita se radicaliza em todas as democracias ocidentais e também em Portugal - tornando-se mais liberal nas relações laborais, ortodoxa nas finanças públicas, securitária nos temas das migrações, defensora do recuo do Estado nas funções sociais e individualista nos temas de costumes -, Marcelo permanece personalista e humanista, defensor da economia social de mercado e socialmente conservador. Mesmo que eleitoralmente maioritário no país, por estranho que possa parecer, Marcelo está ideologicamente em minoria na sua família política, enquanto a sua visão para a direita se encontra em perda no combate cultural que vai sendo travado na sociedade portuguesa. O teste ao seu poder efetivo passará, por isso, pela capacidade de contribuir para reposicionar o seu espaço político de origem e reconstruir o campo para entendimentos entre PS e PSD. Marcelo é, hoje, o português com mais poder, mas será capaz de utilizar essa força para, no médio prazo, recentrar a direita portuguesa? 

Professor universitário ISCTE-IUL

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