Camilo Lourenço
Camilo Lourenço 14 de dezembro de 2017 às 21:30

O regime mudou, sr. primeiro-ministro. Habitue-se!

A semana que passou vai ficar para a História. Ela sintetiza todos os vícios que a 3.ª República criou. Senão veja: a TVI divulga uma reportagem que põe em causa os critérios de gestão de uma IPSS.

E expõe, ao mesmo tempo, as ligações perigosas entre essa associação e o poder político, representado por dois membros do Governo e por uma série de personalidades do mundo político.

 

O que se segue? Ao segundo dia, no meio de revelações impensáveis, o secretário de Estado demite-se. O ministro, esse, tenta passar entre os pingos da chuva. Começa por dizer que o cargo era não executivo, que não ouviu nada, que não viu nada, que não teve acesso a uma carta com aviso de receção (entretanto desaparecida). No dia seguinte, uma reportagem da RTP mostra que o ministro sabia muito mais do que admitiu.

 

Até o Presidente da República foi apanhado de surpresa: vacila, gagueja e deixa passar a ideia de que não está confortável com o assunto. Percebe-se porquê: a Presidência recebeu uma carta a denunciar irregularidades na Raríssimas.

 

O que faz o primeiro-ministro? Remete-se ao silêncio. Até ontem, para dizer que tem plena confiança no ministro. Estranho, dir-se-á. Afinal Vieira da Silva está demasiado envolvido no processo. É aqui que vale a pena fazer uma pergunta: o que leva António Costa a admitir apenas a demissão de um dos governantes? Duas coisas: 1 - A falta de perceção de que o regime mudou; 2 - A expectativa de "entalar" o Presidente da República (desconfortável com a situação).

 

Vamos primeiro ao segundo ponto. Marcelo pôs-se (estranhamente) a jeito ao deixar-se enlear nas perguntas dos jornalistas. O Presidente poderia ter admitido que os seus serviços não escrutinaram devidamente a gestão da Raríssimas. E que apenas pretendeu homenagear o contributo da instituição para a causa das patologias raras. E poderia ter lembrado que nunca trabalhou para a associação e não recebeu dinheiro da mesma. Isso teria chegado para entalar o primeiro-ministro que, com o seu silêncio, pretendeu "fritar" o Presidente.

 

Agora o primeiro ponto (o mais importante e o mais grave). O que este episódio mostra é que a atual classe política, a começar pelo PS (no poder), não percebeu que o regime mudou. Há dez anos, casos como este teriam sido chutados imediatamente para canto. Sem consequências. Até porque a própria opinião pública e a comunicação social considerariam a situação "normal".

 

O problema é que o paradigma mudou. Isto é, o regime mudou. O primeiro-ministro não percebeu isso, do alto da sua arrogância (muito típica da esquerda, aliás). E mesmo na oposição há quem não tenha percebido o problema. É bom que aprendam. Rapidamente. A paciência da sociedade esgotou-se.

 

Jornalista de Economia

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Anónimo 19.12.2017

Comentário interessante de Camilo Lourenço que omite outros protagonistas da associação e de cores laranjas. Ou seja a mesma omissão feita em tempos no caso BPN, no caso BragaParques no caso dos submarinos e dos sobreiros e da proficua relação da direita com a caridade e com a falcatrua...

Fui assim, o resto é conversa de golpistas 18.12.2017

O governo anterior teve uma atitude patriota, teve que tirar o país da bancarrota em que o PS nos meteu. Parada que foi a dinâmica para o desastre, em 2013, o país começou a crescer, o desemprego a descer, aumentaram as exportações e turismo. juros baixaram. O resto era seguir o que estava feito

jj 17.12.2017

Sim. Sim. Tu é que vais ter de te habituar a fazer melhores cálculos de economia, ou voltar à faculdade para aprender.

Surpreendido ! 17.12.2017

Como é que é possível alguém defender um governo cujo protagonista Costa diz "à boca cheia" que 2017 "foi um ano muito saboroso" ?! Será que já se esqueceu da tragédia horrorosa de tantas famílias inocentes, durante os incêndios que arrasaram Portugal? Ao menos, por decência, o Costa devia calar-se!

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