João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 04 de julho de 2017 às 19:58

O risco Trump

O comportamento errático de investidores na Rússia prova, de resto, o temor à imprevisibilidade de Trump. Investidores estrangeiros retiraram 1,6 mil milhões de dólares nos últimos quatro meses.

Ao assinar um contrato para exploração da maior jazida de gás do mundo a francesa Total abriu caminho para o retorno de empresas ocidentais ao Irão, apesar de novas sanções dos Estados Unidos a pretexto do programa de mísseis balístico de Teerão. 

 

A primeira fase de exploração de Pars Sul implica um investimento de 2 mil milhões  de euros da Total para uma quota de 50,1 % num consórcio com a China National Petroleum Corp. (30%) e a Petropars de Teerão (19,9%) destinado a abastecer o mercado doméstico iraniano a partir de 2021. 

 

A Total, presente no Irão desde 1954, abandonou o projecto de extracção no Golfo em 2008, retomando as conversações após as negociações dos estados do Conselho de Segurança da ONU, UE e Alemanha com o Irão sobre o programa nuclear de Teerão terem chegado a bom porto em Julho de 2015. 

 

O contrato, assinado segunda-feira, inclui salvaguardas contra eventuais sanções norte-americanas e poderá contribuir para acelerar a concretização de acordos que Teerão negoceia com o grupo anglo-holandês Shell, os italianos da Eni, a norueguesa Statoil, além da Gazprom russa e a Petronas  da Malásia.

 

Acesso a capitais e tecnologia são vitais para o Irão valorizar as reservas de gás (as maiores do planeta) e petróleo (só superadas pela Venezuela, Arábia Saudita e Canadá), mas as incertezas quanto às políticas da Casa Branca e do Congresso retraem investimentos estrangeiros.   

   

As sanções aprovadas pelo Senado em Junho, a par de um pacote punitivo contra Moscovo por interferência nas eleições norte-americanas, apoio ao governo de Damasco e ocupação da Crimeia, podem agravar-se bruscamente no quadro da estratégia pró-saudita de Washington para isolamento de Teerão.

 

O comportamento errático de investidores na Rússia prova, de resto, o temor à imprevisibilidade de Trump. Investidores estrangeiros retiraram 1,6 mil milhões de dólares nos últimos quatro meses, segundo a Emerging Porfolio Equity Fund Research de Cambridge, Ma., ao constatarem o gelo nas relações entre a Casa Branca e o Kremlin.

 

A opacidade plutocrática patente nas querelas judiciárias que desde a Primavera envolvem a petrolífera Rosneft e o consórcio financeiro moscovita Sistema é outro factor desfavorável no caso russo, mas a perplexidade sobre o comportamento de Trump e a incerteza quanto às reacções que possa provocar condicionam cada vez mais os decisores económicos e políticos em conflitos envolvendo a Casa  Branca.

 

O efeito altamente pernicioso do repúdio de políticas para contenção de efeitos negativos das alterações climáticas dificilmente será mitigado pelo empenho da China e da UE ou as iniciativas de governos estaduais e municípios nos Estados Unidos no quadro do Acordo de Paris de 2015.

 

O proteccionismo económico da Casa Branca, o unilateralismo e consequentes dúvidas sobre compromissos de segurança, a desconsideração por interesses vitais de estados aliados, vão acabar, mais cedo do que tarde, por conduzir a uma crise avassaladora.

 

Os sucessivos testes nucleares e de mísseis de Kim Jong Un, aproveitando-se dos interesses divergentes dos estados vizinhos e de Washington, conduzem a um cenário assustador.

 

Pyongyang, jogando com a vulnerabilidade de Seul, dá sinais de não compreender que tem de começar a descer a parada para poder retomar negociações e reverter ao esquema de extorsão de concessões económicas.

 

Trump é, de facto, suficientemente irresponsável para ripostar com ataques militares unilaterais e lançar a Ásia Oriental e, por ricochete, outras zonas de conflito numa escalada de violência.

 

Kim Jong Un a cada míssil que lança está a jogar com o fogo.

 

Jornalista

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