João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 19 de setembro de 2017 às 21:01

O rumo à vitória de Trump

Ameaça de "destruição total" da Coreia do Norte, isolamento do "regime criminoso" do Irão, condenação de "ditaduras socialistas" em Venezuela e Cuba e de "ataques à soberania" da Ucrânia ao Mar do Sul da China, marcaram a primeira alocução de Donald Trump à assembleia-geral da ONU.
O elogio da defesa primordial dos interesses nacionais em prol de uma comunidade de "Estados fortes e soberanos" soou a falso no discurso de Trump que, ignorando por completo o impacto de alterações climáticas ou as condições de desenvolvimento sustentado, confundiu patriotismo", "força" e "segurança" das nações e instituições políticas.

 

Às críticas às pretensões territoriais russas e chinesas, seguiu-se o agradecimento pelo apoio de Moscovo e Pequim a sanções contra a Coreia do Norte, mas, ao classificar como "missão suicida" o programa nuclear de Kim Jong-Un, Trump deixou bem claro que a via militar é opção premente.

 

De pouco valem para as negociações de bastidores afirmações deste teor quando está em causa a duvidosa eficácia de sanções económicas e financeiras a Pyongyang que Washington pretende agravar até chegar ao corte de fornecimentos chineses de petróleo à Coreia do Norte.

 

Trump sobreavalia a real influência de Pequim e subestima interesses estratégicos da China como prova a insinuação, cada vez mais insistente, de que Washington admite impor multas pesadas ou interditar o acesso ao sistema financeiro norte-americano de instituições financeiras chinesas de relevo envolvidas em transacções com a Coreia do Norte.  

 

Os Estados do Conselho de Segurança e Berlim, por outro lado, têm cada vez mais razões para alarme ao ouvirem Trump repetir que o acordo nuclear alcançado em 2015 com o Irão é "um embaraço" de que Washington pretende descartar-se.

 

O desenvolvimento e os testes de mísseis balísticos que, eventualmente, possam vir a transportar armas nucleares, são matéria em que a razão assiste ao Presidente americano contra Teerão, mas Trump falha na manobra diplomática.

 

A Casa Branca em vez de tentar convencer chineses, russos e europeus a adoptarem uma política concertada para limitar o programa de mísseis balísticos, mantendo, contudo, as contrapartidas para as medidas de suspensão de militarização nuclear e sua verificação, insiste em isolar Teerão através de um bloco antixiita em que sobressaem os interesses da Arábia Saudita.

 

A previsível recusa de Trump em dar luz verde às certificações trimestrais ao congresso quanto ao acatamento pelo Irão dos termos do acordo de 2015, evocando, designadamente, "interesses de segurança nacional", levará a novo choque com os demais signatários, reforçando, sobretudo, os partidários em Teerão de relançamento do programa nuclear militar.

 

A escalada na península coreana só pode ser vista com alarme em Teerão e nos cálculos de Israel a proliferação militar nuclear regional deve contar-se como dado plausível a médio prazo se a crise no Extremo Oriente seguir o seu curso rumo à guerra.  

 

Para Trump, o mundo mudou para melhor em Novembro e são exemplares a bolsa em alta, o aumento de emprego, a potência militar reforçada, ao serviço de uma América empolgada de patriotismo, apostada em pôr termo a toda e qualquer relação comercial ou pacto institucional tido por injusto e pouco razoável para seus interesses.    

 

O Presidente norte-americano converge de momento com António Guterres, boa parte de Estados europeus e à revelia de maior número de países africanos, latino-americanos e asiáticos, na necessidade de reforma da excessiva burocracia e eficácia financeira da ONU, concentrando maiores poderes no secretário-geral.

 

Tal como Pequim, Moscovo, Londres e Paris, Washington não concebe, no entanto, reformas que impliquem alterações na composição do Conselho de Segurança e direito de veto.

 

Trump, de resto, só se diferencia de Xi Jinping e Vladimir Putin por se revelar mais bombástico na reivindicação do direito de acção unilateral, inclusivamente bélica, à revelia da ONU para fazer valer interesses tidos por vitais.  

 

A retórica exacerbada de rumo à vitória frente à "praga" de regimes "perigosos", "perversos", em que, num "apelo à acção", Trump lidera as "nações decentes" da comunidade internacional valeu escassos aplausos ao Presidente norte-americano na assembleia-geral.

 

O "novo despertar das nações" em que se deleita a retórica soberanista de Trump é uma ilusão rumo ao abismo da guerra nuclear.

Jornalista

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