Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 25 de julho de 2017 às 00:01

O silêncio da esquerda 

Pode um Governo cortar nos serviços públicos enquanto repete que está a aumentar-lhes a dotação? Pode um Governo ter o menor investimento público de sempre enquanto garante que é nele que está a apostar?

Pode um Governo oferecer borlas a grandes empresas e dar subsídios implícitos à banca enquanto jura nem mais um cêntimo ao grande capital?

 

A resposta a estas questões é simples e é-nos dada pela realidade: pode com certeza, é isso mesmo que se passa.

 

As cativações, que já aqui referi, demonstram bem os cortes nos serviços públicos. Mas nem precisaríamos de ir às cativações. A despesa para proteção civil e luta contra incêndios em 2016, por exemplo, foi menor do que em 2015 e 2014. No entanto, o discurso do Governo é outro, como se sabe: acabou-se a austeridade, acabaram-se os cortes, o Estado não mais está a encolher-se.

 

O investimento público, que em 2016 atingiu o seu nível mais baixo de sempre, continua em níveis muito abaixo dos proclamados pelo Governo, ficando muito aquém do que está orçamentado. No entanto, o discurso do Governo é outro, como se sabe: o investimento público é essencial à economia, é preciso acabar com as políticas de direita que dele desdenhavam.

 

E agora a borla às grandes empresas, através da reavaliação de ativos, e o subsídio implícito à banca, através da revisão das condições do empréstimo ao Fundo de Resolução. Sim, é de uma borla que falamos, porque o negócio da reavaliação de ativos permitiu um bom encaixe financeiro a cinco grandes empresas. E sim, é de um subsídio implícito que falamos, porque sem a revisão das condições do empréstimo feito pelo Estado ao Fundo de Resolução, que se traduziu numa vantagem de cerca de 630M€, os bancos teriam de injetar mais capital ou, em alternativa, assegurar um novo empréstimo. No entanto, o discurso do Governo é outro, como se sabe: se a direita andou de mãos dadas com o capital e a despejar dinheiro na banca, a esquerda não se cansará de corrigir tais injustiças.

 

Como pode isto passar-se? Como pode o Governo dizer uma coisa, para consumo público, e fazer outra, oposta? Como pode manter-se este logro por tanto tempo?

 

A resposta a esta pergunta é simples e é-nos dada pela realidade: porque convém ao PCP e ao Bloco de Esquerda que se não saiba que os seus votos têm servido para tudo isto, que têm sido eles, votando ou não travando, que têm permitido os cortes, o arraso no investimento público, as borlas e os subsídios implícitos. O que seria se tudo isto se soubesse, se ficasse a nu a sua hipocrisia, a sua falsa moralidade?

 

Mas se tudo isto é verdade, se as cativações existem, se o investimento público foi deliberadamente reduzido, se houve borlas fiscais e subsídios implícitos, se tudo isto se sabe, como podem estes partidos continuar como se nada fosse, sem terem de vir dar explicações sobre a sua contradição (é dela que falo, não dos méritos dessas políticas)?

 

A resposta a esta pergunta é menos simples, mas arrisco uma proposta: este é o primeiro Governo da nossa História a não ter qualquer oposição à esquerda, e todo o nosso sistema mediático se habituou a viver da voz, da denúncia, da constante oposição que era feita pelos partidos de esquerda, pelos sindicatos controlados pelos partidos da esquerda, pelas manifestações da rua orquestradas pelos partidos da esquerda.

 

Foi assim tanto tempo, tantos anos, que há quem confunda o silêncio da esquerda com a paz, com o nada se passa, como se os cortes não fossem feitos, as borlas não fossem dadas, o investimento não fosse cortado, circunstância que tem mediaticamente beneficiado o Governo.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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