Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 15 de janeiro de 2017 às 18:45

O Soares da troika e o da geringonça são a mesma pessoa

A relação de Mário Soares com a economia é feita de aparentes contradições. Soares vincou várias vezes que a economia era subsidiária da política, mas não hesitou em submeter a sua política à economia quando esta reduziu o leque de alternativas.

O Jornal de Notícias citou-o a dizer isto a 1 de Junho de 1984: "Quem vê, do estrangeiro, este esforço e a coragem com que estamos a aplicar as medidas impopulares aprecia e louva o esforço feito por este governo." E o Jornal de Negócios citou-o a 25 de Abril de 2012 a dizer isto: "A austeridade, imposta pela troika e pela ideologia do actual Governo, não nos leva a parte alguma ou, para ser mais preciso, conduz-nos, cada ano, de mal a pior." Contraditório? Sim - mas não contraditório com o político Mário Soares.

 

Sobre ele foi sublinhada uma característica conhecida: o pragmatismo. Rui Ramos, no melhor ensaio que li nos últimos dias (publicado no Observador), sublinha outra: o instinto inato, apurado ao longo de anos de luta contra a ditadura, para ser oposição à força dominante. Mais do que a aversão aos números ou a alegada subjugação da economia à política, foram estes dois pilares que guiaram sempre a sua intervenção política na economia, tema que sempre levou muito a sério.

 

Assim percebemos o Soares que travou as nacionalizações e chamou de volta os banqueiros (quando não era fácil fazer isto), o Soares que liderou a execução de programas duros do FMI num país muito mais pobre do que o de 2011, o Soares que moralizou sobre a necessidade de "apertar o cinto". Era luta contra os excessos dos comunistas no PREC (que ameaçavam ser força dominante), era saneamento das finanças públicas por falta de alternativa (pragmatismo), era tudo para pôr Portugal na CEE (que via, e bem, como "seguro" da democracia num país muito pouco habituado a isso).

 

Mas assim também percebemos o Mário Soares, já fora da camisa-de-forças do poder, que identificou a "financeirização" da economia global como uma força dominante a merecer oposição. Não foi em 2011 que fez essa descoberta, mas foi com o programa da troika que a sua contestação se tornou mais ouvida. Soares não prescindiu do pragmatismo: tal como em 1975 se aliou a uma Igreja que tinha sido cúmplice do Estado Novo para combater um inimigo comum (a esquerda radical e antidemocrática), em 2013 procurou a convergência de pontos de vista com a esquerda radical contra o que entedia ser a hegemonia neoliberal europeia.

 

A prioridade política de Mário Soares foi a formação e a consolidação de um regime democrático em Portugal - da esquerda à direita não há dúvidas sobre o contributo crucial que Soares deu nesta frente. Mas quando se desloca a conversa para a política económica, cada campo escolhe o seu Soares de referência: o da esquerda nunca teria cumprido o memorando da troika; o da direita não teria um discurso crítico da Europa liberal e nunca faria uma aliança com comunistas e trotskistas. Ambos estão errados.

 

Se fosse mais novo e estivesse no lugar de Passos Coelho, Mário Soares teria cumprido o programa da troika (não sei se com a mesma retórica) porque o essencial era recuperar a capacidade de financiamento e manter Portugal no euro. Se fosse António Costa em 2015, Mário Soares teria formado a geringonça (não sei se pelo mesmo método) porque o essencial era diferenciar o seu PS europeísta da restante direita e assim impedir a fragmentação do partido e a ascensão da esquerda dura. A economia trata de escolhas perante recursos escassos - e Soares foi sempre óptimo a escolher entre o essencial e o acessório.

 

Jornalista da revista SÁBADO

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mais votado Anónimo 16.01.2017


PRINCÍPIO DA IGUALDADE, justiça, confiança, proporcionalidade (Ler com atenção se for membro do TC)

Então há dinheiro para pagar aos atuais pensionistas, e não há dinheiro para pagar aos futuros pensionistas?

Mas que justiça é esta?...

As pensões, sejam elas altas ou baixas, devem ser calculadas pela mesma fórmula para todos, atuais e futuros pensionistas!

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Anónimo 16.01.2017


PRINCÍPIO DA IGUALDADE, justiça, confiança, proporcionalidade (Ler com atenção se for membro do TC)

Então há dinheiro para pagar aos atuais pensionistas, e não há dinheiro para pagar aos futuros pensionistas?

Mas que justiça é esta?...

As pensões, sejam elas altas ou baixas, devem ser calculadas pela mesma fórmula para todos, atuais e futuros pensionistas!