Fernando  Sobral
Fernando Sobral 30 de agosto de 2017 às 19:25

O soviete da Autoeuropa

Em 1925, o russo Sergei Eisenstein realizou um filme mudo chamado "Greve", poucos meses antes de ter concluído o seu celebrado "O Couraçado Potemkine". Foi apresentado no Teatro Proletcult, e contava-nos a história de uma greve realizada em 1903.

O seu ponto culminante, quase no fim, é quando Eisenstein faz uma colagem das imagens da violenta repressão da greve com outras, da morte de gado. O filme começa com uma citação de Lenine: "A força da classe operária é a organização. Sem a organização das massas, o proletariado não é nada. Organizado é tudo." Quem lhe dá a organização? Os sindicatos e, por trás destes, o partido. Eisenstein transmite outra mensagem: a montagem de imagens diz-nos que o cinema nunca fala através de uma única imagem, mas da justaposição de várias. Ambas as ideias, a de Lenine e a de Eisenstein, ajudam-nos a perceber a greve na Autoeuropa.

 

A Autoeuropa foi um modelo proveitoso de paz social. De um momento para o outro tudo se eclipsou. Por causa de se trabalhar ao sábado? Por motivos de conforto familiar? Não. Tudo tem que ver com quem organiza e com a montagem das diferentes realidades. Até agora o elo de comunicação entre operários e administração era feito pela Comissão de Trabalhadores (ligada ao BE). Algo que sempre foi um sapo que não atravessava a garganta dos sindicatos afectos à CGTP (e ao PCP), que vislumbram na Autoeuropa um bastião fundamental para os seus desígnios políticos. Criar um soviete na Autoeuropa é, há muito, um sonho do PCP. A oportunidade surge agora. E, com ela, mostrar ao Governo (mais do que à administração da Autoeuropa) que, se for necessário, e não negociar outras coisas, pode ficar refém de 1% do PIB. É uma aposta típica de Las Vegas. Ou tudo ou nada. Embora aqui o PCP se arrisque, tal como o país e a região de Setúbal, a ficar sem nada. Há muito que controlar politicamente a Autoeuropa era um desafio para o PCP. Resta saber se não é um passo demasiado à frente. Sem espaço para depois dar dois à retaguarda.

 

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comentários mais recentes
Mr.Tuga Há 3 semanas

Exacto!

E já vimos no que dá quando os PxP`s tomam conta de algo....
Venezuela, Cuba, Coreia Norte, etc....

surpreso Há 3 semanas

Já recebeste instruções do teu partido?

Anónimo Há 3 semanas

Se os automóveis produzidos na unidade industrial podem vir a sofrer uma redução de 33 ou mais por cento no seu preço por via da aplicação de tecnologia da área da automação e robótica industrial, obviamente que eu enquanto consumidor de automóveis quero usufruir o quanto antes dessa redução de preço. Se por acréscimo, enquanto accionista, posso obter sob a forma de dividendos e potenciais mais-valias um excelente retorno sobre o investimento em acções dessas empresas que desenvolvem e fabricam sistemas de automação e robótica industrial, não restam dúvidas de que o sindicalismo defensor do excedentarismo, a par com a corrupção, a escravatura e o genocídio, é um mal que deve ser extirpado das economias e sociedades sem qualquer hesitação.

Anónimo Há 3 semanas

É fundamental que as sociedades, por causa das pessoas de todas as idades e por uma questão da mais elementar humanidade, tenham um sistema público de segurança social implementado e sempre em vigor. Esse sistema público de segurança social não pode é chamar-se direcção regional, administração regional, delegação regional, centro hospitalar, repartição de finanças, junta de freguesia, câmara municipal, escola secundária, faculdade, serviços municipalizados de transportes urbanos, sociedade de transportes colectivos, Águas de Portugal, CP, Carris, BdP, Novo Banco ou Caixa Geral de Depósitos. E isto é o que as esquerdas portuguesas, incluindo muitos centristas cata-vento e pseudo-direitolas, não compreendem.