Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 24 de agosto de 2017 às 20:15

O terror dos média

O terror surgiu quando o antepassado do homem, há uns dois milhões de anos, desceu das árvores para o chão da savana, para o descampado. Na sequência dessa descida, forçada por mudanças climatéricas, surgiram novos e variados perigos.

As árvores eram um ambiente seguro, sempre igual. Mas a terra não. O chão estava cheio de perigos; o plano era pleno de ameaças, como comentou Vilém Flusser, o filósofo dos média. Na terra, as aranhas, os seres rastejantes e outros perigos. Por isso, na descida à terra, o medo intenso ganhou o nome de terror.

 

O terrorismo de hoje assenta também num processo de mudança de mundos. Continuando com Flusser, hoje todos os eventos correm para ser imagem. Os média digitais são o contexto de um terrorismo que assenta num especto de imagens que vai do directo às fotografias dos autores dos atentados em destaque nos ecrãs de todo o mundo, passando pelos vídeos difundidos aos milhões nos média sociais.

 

Marx estava certo quando previu que os capitalistas venderiam a corda com que seriam enforcados. Esqueceu-se no entanto que os capitalistas sabiam ler, como comenta Yuval Harari na obra recente "Homo Deus". Leram, compreenderam e as coisas mudaram.

 

A internet, os telemóveis, a banda larga e a intensidade global das comunicações exigem que hoje se "leia" outra vez, que se reequacione a mediatização do terror, a difusão dos nomes e das fotografias dos seus autores, a transmissão em directo de imagens não editadas, ou seja, paradoxalmente não mediadas, e as imagens de violência extrema. Os efeitos miméticos e os processos de radicalização alimentam-se deste contexto. Num mundo feito imagem, as imagens do terrorismo são terrorismo em si mesmas. 

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