Johan Aurik
Johan Aurik 15 de fevereiro de 2017 às 14:51

O trabalho num futuro automatizado

As importantes mudanças – na verdade, revolucionárias – vão acontecer ao longo de muitas décadas, e não de repente, como um big bang.

As tecnologias disruptivas estão a ditar o nosso futuro, à medida que novas inovações tornam cada vez mais esbatidas as linhas entre os reinos físico, digital e biológico. Os robôs já estão nas nossas salas de operações e restaurantes de fast-food; podemos agora usar imagens 3D e extração de células estaminais para fazer crescer ossos humanos a partir das próprias células do paciente; e a impressão 3D está a criar uma economia circular em que podemos usar e reutilizar matérias-primas.

 

Este tsunami de inovação tecnológica continuará a mudar profundamente a forma como vivemos e trabalhamos, e a forma como as nossas sociedades funcionam. No que se chama agora a Quarta Revolução Industrial, as tecnologias que estão a atingir a maturidade - incluindo a robótica, nanotecnologia, realidade virtual, impressão 3D, a Internet das Coisas, inteligência artificial e biologia avançada - irão convergir. E à medida que essas tecnologias continuam a ser desenvolvidas e amplamente adoptadas, trarão mudanças radicais em todas as disciplinas, indústrias e economias, e na forma como indivíduos, empresas e sociedades produzem, distribuem, consomem e eliminam bens e serviços.

 

Esses desenvolvimentos têm levantado dúvidas sobre o papel que os seres humanos desempenharão num mundo conduzido pela tecnologia. Um estudo de 2013 da Universidade de Oxford estima que quase metade de todos os empregos nos Estados Unidos poderão ser perdidos para a automação nas próximas duas décadas. Por outro lado, economistas como James Bessen, da Universidade de Boston, argumentam que a automação costuma acompanhar a criação de novos empregos. Então, como é que será - novos empregos ou desemprego estrutural massivo?

 

Neste ponto, podemos estar certos de que a Quarta Revolução Industrial terá um impacto disruptivo sobre o emprego, mas ninguém consegue prever a escala da mudança. Assim, antes de engolirmos todas as más notícias, devemos olhar para a história, que sugere que a mudança tecnológica afecta mais a natureza do trabalho do que a oportunidade de participar no trabalho em si.

 

A Primeira Revolução Industrial deslocou a produção britânica das casas das pessoas para fábricas, e marcou o início da organização hierárquica. Essa mudança foi muitas vezes violenta, como demonstraram os famosos conflitos luditas do início do século XIX na Inglaterra. Para encontrar trabalho, as pessoas foram forçadas a mudar-se das zonas rurais para centros industriais, e foi durante este período que surgiram os primeiros movimentos operários.

 

A Segunda Revolução Industrial introduziu a electrificação, a produção em grande escala e novas redes de transporte e comunicação, e criou novas profissões como a engenharia, a actividade bancária e o ensino. Foi aí que as classes médias surgiram e começaram a exigir novas políticas sociais e um maior papel do governo.

 

Durante a Terceira Revolução Industrial, os modos de produção foram automatizados pela electrónica e pela tecnologia da informação e comunicação, com muitos trabalhos humanos a passarem da produção nas indústrias para os serviços. Quando as caixas automáticas (ATMs) surgiram na década de 1970, assumiu-se inicialmente que seria um desastre para os trabalhadores da banca de retalho. No entanto, o número de empregos nas agências bancárias aumentou ao longo do tempo, à medida que os custos caíam. A natureza do trabalho havia mudado: tornou-se menos transaccional e mais focado no atendimento ao cliente.

 

A disrupção acompanhou cada uma das revoluções industriais anteriores, e a quarta não será diferente. Mas se tivermos em conta as lições da história, podemos gerir a mudança. Para começar, precisamos de nos concentrar nas competências, e não apenas nos trabalhos específicos que vão aparecer ou desaparecer. Se conseguirmos determinar quais são os conjuntos de competências de que precisamos, podemos formar e treinar a força de trabalho humana para alavancar todas as novas oportunidades que a tecnologia cria. Os departamentos de recursos humanos, as instituições educacionais e os governos devem liderar este esforço.

 

Em segundo lugar, a experiência passada demonstrou repetidamente que as classes desfavorecidas devem ser protegidas; os trabalhadores vulneráveis que são deslocados pela tecnologia devem ter tempo e meios para se ajustarem. Como vimos em 2016, quando grandes desigualdades de oportunidades e resultados levam as pessoas a acreditar que não têm futuro, as consequências não tardam.

 

Por último, mas não menos importante, para garantir que a Quarta Revolução Industrial se traduz em crescimento económico e dá frutos para todos, temos de trabalhar em conjunto para criar novos ecossistemas reguladores. Os governos terão um papel crucial, mas os líderes empresariais e da sociedade civil também precisarão de colaborar com os governos para determinar os regulamentos e padrões apropriados para as novas tecnologias e indústrias.

 

Não tenho ilusões de que isso seja fácil. A política, e não a tecnologia, determinará o ritmo da mudança, e a implementação das reformas necessárias será um trabalho difícil e lento, particularmente nas democracias. Exigirá uma combinação de políticas voltadas para o futuro, estruturas reguladoras ágeis e, acima de tudo, parcerias eficazes entre fronteiras organizacionais e nacionais. Um bom modelo a ter em conta é o sistema dinamarquês de "flexigurança", no qual um mercado de trabalho flexível está ligado a uma forte rede de segurança social que inclui serviços de formação e requalificação para todos os cidadãos.

 

A tecnologia pode estar a avançar rapidamente, mas não vai levar o tempo, em si, a colapsar. As importantes mudanças – na verdade, revolucionárias – vão acontecer ao longo de muitas décadas, e não de repente, como um big bang. Indivíduos, empresas e sociedades têm tempo para se ajustar; mas não há margem para atrasos. A criação de um futuro com benefícios para todos deve começar agora.

 

Johan Aurik é CEO e chairman da A.T. Kearney.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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comentários mais recentes
A. Miguel 15.02.2017

Muito boa análise, mas estou convencido de que esta revolução terá consequências menos coincidentes com as das revoluções anteriores.
Por isso, e tal como o autor afirma, devemos criar condições de adaptação de forma antecipada.