André Macedo
André Macedo 12 de novembro de 2017 às 21:00

O Web Summit incomoda?

Interrogo-me: como pode um jornalista - e foram vários --, a incomodar-se tanto com o Web Summit quando tem à mão de semear, durante três dias, tantas pessoas dedicadas ao conhecimento e à economia

O Web Summit poderia ser um encontro para lunáticos e aspirantes a lunáticos da nova igreja universal da tecnologia. Poderia ser um antro fechado, um beco sem saída. Poderia ser um encontro virado apenas para dentro, indiferente às dúvidas que nos assaltam sobre o emprego e o impacto da tecnologia no nosso modo de vida, sobre os riscos e virtudes da inteligência artificial, sobre a exploração sexual globalizada através da internet, sobre as mentiras e manipulações que minam e rebentam as democracias, sobre a evasão fiscal que define muitos dos colossos da economia digital.

 

O Web Summit poderia ser uma espécie de comício partidário, daqueles que somos forçados a engolir todos os anos, sempre com os mesmos a dizer as mesmíssimas coisas à procura da mesma coisa - o poder pelo poder - sem apontar um ou vários caminhos, sem diversidade opinativa, sem capacidade para se olhar ao espelho e dizer: isto está mal, temos de melhorar e corrigir, vamos a isso, quem tem ideias que as mostre e partilhe, o espaço é vosso.

 

O Web Summit poderia ser conformista e conformado, imbecilmente feliz numa espécie de incesto tecnológico cristalizado na sua aparência de sucesso e nos seus acrónimos tribais decifrados apenas pelos pseudo-entendidos do famoso ecossistema digital. Poderia ser apenas uma bolha, uma gigantesca montra de produtos, um hipermercado de quinquilharia tecnológica sem real significado ou alcance cultural, científico e humano.

 

Poderia ser apenas um estupendo negócio para o organizador, o irlandês Paddy Cosgrove, que passa o ano a organizar as centenas de grandes e pequenas conferências que recheiam os três dias do festival ou evento, feira ou tertúlia, o nome importa pouco, porque o essencial, o nervo deste acontecimento não são as promessas de riqueza instantânea, são as propostas e ideias concretas que são apresentadas e sujeitas à crítica e às perguntas de quem estiver disposto a ouvir, a pensar e a talvez a questionar. Não apenas a disparar preconceitos, à falta de argumentos e alguma investigação sobre o assunto.

 

Interrogo-me: como pode um jornalista - e foram vários --, a incomodar-se tanto com o Web Summit quando tem à mão de semear, durante três dias, tantas pessoas dedicadas ao conhecimento e à economia - da saúde à engenharia, da energia aos automóveis, dos media às políticas públicas, de esquerda e de direita - todas elas disponíveis para explicar-se e justificar o que fazem, porque o fazem e para onde vão a seguir.

 

No Web Summit não há conferências de imprensa sem direito a perguntas. O responsável pela campanha digital de Donald Trump foi cilindrado no palco principal pelas dúvidas sérias de um jornalista bem preparado. E respondeu. Aqui e ali foi aplaudido. A comissária da Concorrência da União Europeia teve de justificar as decisões que toma e não toma para proteger os consumidores. Várias empresas ligadas às redes sociais foram confrontadas com a utilização dos dados pessoais dos seus clientes e dos evidentes riscos para a privacidade, ou seja, para a democracia.

 

Ao representante do Messenger (Facebook) foi perguntado o motivo a porque a empresa foi tão lenta a perceber que o governo russo estava a manipular as eleições americanas através da difusão de notícias falsas. Houve um painel onde se discutiu como as tecnologias podem ajudar a prever e combater os incêndios ou os afogamentos.

 

Nada disto interessa? Ao entusiasmo pelo conhecimento e à cobertura informativa do evento, o jornalista João Miguel Tavares chamou "fervor religioso". Interessante generalização e comparação... Para o ano, o Web Summit talvez o convide a discorrer sobre o assunto. Vai ver que ainda consegue amealhar mais uns likes.

 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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