Camilo Lourenço
Camilo Lourenço 10 de Junho de 2012 às 23:30

O bailout espanhol e a vergonha bancária europeia

A Espanha "ganhou" 100 mil milhões para recapitalizar os seus bancos, depois de meses a jurar que resolvia sozinha a situação.
A Espanha "ganhou" 100 mil milhões para recapitalizar os seus bancos, depois de meses a jurar que resolvia sozinha a situação. Há muitas lições a tirar deste folhetim, mas há três que se impõem: 1 - a do custo para a economia e para o contribuinte (quanto mais se empurra com a barriga, pior); 2 - a falácia de que é um problema limitado à banca; 3 - a qualidade da supervisão bancária na Europa.

1. "Timing" - Se Espanha tivesse negociado o apoio há seis meses, teria evitado uma degradação tão pronunciada da economia (as empresas estão sem crédito). E os custos para o contribuinte seriam mais baixos: nem todas as recapitalizações teriam de ser feitas pelo Estado (quem investe num banco se as autoridades contam uma "verdade" hoje e outra amanhã?).

2. Espanha é diferente? O governo apressou-se a dizer que Espanha não vai ser "intervencionada", como Portugal, Irlanda e Grécia. Hummm….! Vamos a contas. Cem mil milhões equivalem a 9,5% do PIB espanhol. Somando isto à dívida pública actual (68,5% do PIB), de uma penada a dívida salta para 78,5%. Valor que voltará a subir este ano porque o PIB deve cair 4,1%. Moral da história: alguém acredita que Espanha não vai ser obrigada a fazer novos cortes na despesa pública e a avançar com reformas estruturais?

3. Qualidade da supervisão: qual a credibilidade que merece a Autoridade Bancária Europeia depois de três "stress tests" que não detectaram necessidades de recapitalização que podem chegar a 100 mil milhões de euros?

Ou a União avança rapidamente para um Ministério das Finanças Europeu e para uma supervisão centralizada da banca, ou os "nacionalismos" vão dar cabo do Euro.



camilolourenco@gmail.com
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João Honesto 11.06.2012

Ah, compadre Camilo, quem o viu e quem o vê... Ainda há um ano a zurzir no governo Socras e a tecer loas aos bancos espanhóis que, na sua boca sábia, tão diferentes eram dos portugueses. Quem me dera ser assim, uma grande cabeça que diariamente sobre tudo opina como os sofistas tão cruelmente retratados por Platão.

Anónimo 11.06.2012

Excelente artigo ,continua Camilo

Leonel Martins 11.06.2012


http://omniaeconomicus.blogspot.pt/2012/04/sera-que-austeridade-e-sinonimo-de.html

A resolução da crise, em definitivo, passa por um orçamento único para garantir a sustentabilidade da moeda europeia. O euro passaria a estar suportado pela mesma política monetária centrada no BCE e pela mesma política orçamental, como qualquer moeda a nível mundial. Os EUA sentiram as dificuldades, nos primeiros 10 anos após a independência, de ter uma moeda sustentada apenas pela política monetária centralizada. Um orçamento único foi criado a seguir, caso contrário provavelmente hoje os EUA não seriam como conhecemos…

Leonel Martins 11.06.2012


http://omniaeconomicus.blogspot.pt/2011/01/moeda-e-politica-economica.html


O euro é a única moeda a nível mundial que não usufrui de uma plena política económica. Tem uma política monetária centrada no Banco Central Europeu (BCE), mas quanto à política orçamental cada país tem a sua, para a moeda única ter o segundo pilar a funcionar, os orçamentos deveriam ser centralizados no Parlamento Europeu, e cada parlamento nacional teria que abdicar da elaboração do Orçamento do Estado. Gordon Brown advertiu Tony Blair dos entraves que podiam surgir com a adesão ao euro. Os EUA têm problemas de dívidas relevantes em alguns Estados (A Califórnia tem um rating de A-, dado pela S&P, idêntico à República portuguesa), mas existem vasos comunicantes que facilitam transferências de fundos entre Estados. No séc. XIX a Bélgica, França, Luxemburgo e Suíça partilharam a mesma moeda durante 30 anos, mas acabou por falhar por falta de uma política orçamental única. A Escandinávia também teve uma experiência idêntica com a Coroa. A crise da dívida soberana culminará numa espécie de federalismo europeu, união política? Esta crise pode ajudar a Europa a fortalecer-se. Aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes.

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