Fernando  Sobral
Fernando Sobral 16 de Outubro de 2016 às 19:30

O chicote do OE

Os Orçamentos do Estado aprenderam muito com Hollywood, onde um cêntimo é um cêntimo. Para dar algo, têm de cortar nalguma coisa. Especialmente em países que não têm fundos ilimitados como o Tio Patinhas.

Imagina-se, por isso, que Mário Centeno deve ter-se inspirado com o grande realizador Cecil B. de Mille. Este, durante as rodagens de um "western", de nome "The Plaisman", conseguiu convencer a actriz que fazia de Calamity Jane (Jean Arthur), que ensaiasse as chicotadas nele. Assim poupariam uns dólares com os duplos e ela estaria pronta para filmar sem desperdiçar película com chicotadas mal dadas. Cecil acabou bastante ferido, mas feliz. Com as costas em sangue, mas com o orçamento do filme firmemente controlado. Nada que não se veja neste OE de contenção do Governo PS. Com a guilhotina de Bruxelas colocada em sítio visível e com a incerteza da decisão da DBRS, António Costa não pode cair na tentação das sereias e atirar-se ao mar para distribuir rosas pelos peixes. Assim, dando alguns pastéis de nata ao BE e ao PCP, para estes aquecerem os estômagos dos seus apoiantes, tem de mostrar firmeza nas contas. Tudo a favor do défice controlado, nada contra ele.

 

O mundo é o que é: ninguém no Governo descobriu a fórmula mágica de transformar pedras da calçada em dinheiro. Por isso as promessas são virtuais: talvez se cumpram um dia. O modelo de crescimento baseado no aumento do consumo privado foi um equívoco: os portugueses só já compram o indispensável, porque redescobriram o que é viver num país pobre. Não havendo uma árvore das patacas disponível, o Governo e a maioria têm de optar pelo realismo mágico: uns pós de distribuição e outros de fiscalidade criativa. Por isso não se poderia esperar que este OE fosse o caminho marítimo para o fim da austeridade. É um jogo de espera. À falta de dinheiro, e sem euros para contratar duplos, chicoteiam-se as costas dos do costume. Mas desta vez com um sorriso nos lábios. De compreensão pela dor. E é nisso que Costa ganha a Passos Coelho.

 

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mais votado Anónimo Há 2 semanas

Neste pais compensa o cinismo e a venda da banha da cobra. Politico que fale verdade e que mostre a realidade crua não tem hipoteses.

comentários mais recentes
Anónimo Há 2 semanas

Neste pais compensa o cinismo e a venda da banha da cobra. Politico que fale verdade e que mostre a realidade crua não tem hipoteses.

Mr.Tuga Há 2 semanas

Muito BOM!