Hélder Carrasqueira
O crescente desemprego no Algarve - motivos e justificações
30 Maio 2012, 23:30 por Hélder Carrasqueira
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A concorrência feroz de outros destinos turísticos e as novas formas de distribuição turística, tornam a rentabilidade baixa e pressionam para o corte de custos e para a cessação de contratos.
O Algarve foi apanhado de forma grave pela crise económica, cuja principal consequência social é o desemprego, sendo a região a que no todo nacional apresentou o valor mais elevado, 20%. Quais os motivos que justificam esta situação? Vejamos.

Desde logo, o facto de se ter especializado em termos produtivos essencialmente no sector turístico. Se consultarmos os vários estudos e planos de desenvolvimento elaborados para a região, facilmente se constata que não faltaram recomendações para não se depender excessivamente da monocultura do turismo. Porém, a atractividade que o sector exerce, favorece a deslocação da mão-de-obra das actividades primárias e secundárias para o turismo, inviabilizando na prática o desenvolvimento dos outros sectores na região.

O turismo por sua vez, enquanto está a crescer, tende a atrair trabalhadores. Segundo os últimos censos a região foi no País a que registou maior crescimento populacional, passando de 395.218 para 451.005 residentes - crescimento de 14,1% entre 2001 e 2011; acresce que no índice de poder de compra concelhio, o Algarve era a única região do País, além de Lisboa, que estava acima da média nacional com 100,4% - em 2004 estava com 107,8%. Logo, também este factor ajudou na dinamização de outra característica do turismo que é o desenvolvimento da imobiliária turística e residencial, sector que induz a construção civil. Com esse fenómeno raro que foi o crédito abundante e barato durante a década anterior, tudo isto foi levado ao extremo (existindo agora milhares de fogos por vender).

Ora uma região que vive essencialmente do turismo (hotelaria, restauração e actividades afins), imobiliária e construção civil, depende da capacidade dos clientes dos mercados emissores terem rendimentos disponíveis, sentirem segurança física e emocional para viajar. Estes aspectos foram fortemente atingidos com a crise. A evolução do ciclo económico tornou-se incerto, com crescimento fraco; a libra desvalorizou face ao euro tornando mais caro o Algarve para os ingleses; as portagens na Via do Infante aparecem como uma barreira extra para o mercado espanhol (caiu 35% em Março de 2012); o mercado português está fortemente deprimido e penalizado pela perda dos subsídios de férias e natal. Se a isto acrescer o corte no crédito, bloqueando a construção civil/imobiliária, estão lançados os dados para sérios problemas para a actividade económica. Também o comércio, outra actividade relevante para o VAB regional e a criação de emprego, vê cair sistematicamente o comércio tradicional e um crescendo das grandes superfícies. Estas, quando a rentabilidade diminui cessam de imediato contratos de trabalho no sentido de tentarem manter os índices de rentabilidade.

Acrescem outros aspectos específicos. Apareceram na bacia do mediterrâneo outros destinos turísticos como a Turquia, Egipto ou Tunísia, a preços imbatíveis e fornecendo uma experiência nova, diversa daquela que o Algarve apresenta. Acresce a opção pela aviação "low cost" que traz turistas que permanecem menos tempo, gastam menos, vão mais para alojamento alternativo e menos para a hotelaria tradicional. Na época baixa, tendem a reduzir o número de voos pela sua falta de rentabilidade. Consequências: antes dizia-se que o Algarve era refém dos operadores turísticos, mas que enchiam os hotéis e tinham um ciclo mais elevado de fluxo turístico durante o ano. Hoje os operadores foram expulsos pelas "low cost" (70% de voos charter em 2001 no aeroporto de Faro e 70% de voos "low cost" em 2011) e os hotéis começaram a fechar no Inverno. Os hotéis por sua vez têm hoje mais canais de distribuição à sua disposição mas têm que ser proactivos para conseguirem clientes e nunca os preços foram tão transparentes dado a disponibilidade dos mesmos online. A recuperação das taxas de ocupação entre 2008 e 2011 foi acompanhada por um preço médio quarto mais baixo do que na anterior recessão de 2002/3. Em consequência, o indicador de rentabilidade REVPAR permaneceu estagnado entre €23,8 e €24,1. Tudo isto pressionou na baixa dos preços, no corte de custos e no funcionamento com o mínimo de pessoal necessário. Até nas cozinhas, onde se podia integrar produtos da região e aumentar o efeito multiplicador, cada vez se recorre mais ao "outsourcing", com a aquisição de comida pré-confeccionada, a que o pessoal mínimo dá o toque final. Acresce a sazonalidade "natural" (ex. no primeiro trimestre de 2011 havia 14,7% de desemprego, no segundo baixou para 13,3% (correspondente à criação de 4.500 empregos na hotelaria, restauração e afins).

Em suma, as principais actividades contribuintes para a criação de riqueza na região no sector privado tiveram quebras muito significativas o que se reflectiu muito fortemente na destruição de emprego. A concorrência feroz de outros destinos turísticos e as novas formas de distribuição turística, tornam a rentabilidade baixa e pressionam para o corte de custos e para a cessação de contratos. Se a isto acrescentarmos o significativo aumento populacional e o efeito sazonal, temos uma boa explicação para os actuais níveis de desemprego da região.

Enfim, um verdadeiro problema. Entretanto, uma nota de esperança: quando começar a recuperação económica, o turismo é dos primeiros sectores a apresentar resultados positivos como o provam as estatísticas da OMT. Acresce que na anterior recessão em 2002/3 também o Algarve teve um desemprego superior ao país para depois retomar uma trajectória de quatro anos sempre com desemprego inferior.


Docente da Universidade do Algarve - ESGHT


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