Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 19 de Outubro de 2016 às 20:32

O futuro do trabalho

Para não falarmos só de notícias negativas ou de assuntos preocupantes, gostaria de referir uma sessão a que assisti ontem de manhã no Teatro da Trindade, em Lisboa. A sessão pretendeu celebrar os 100 anos do Ministério do Trabalho que este ano se completam.

Esteve presente o primeiro-ministro, o ministro do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, o diretor-geral da OIT e o diretor para o Emprego, Trabalho e Assuntos Sociais da OCDE. Gostaria de referir três pontos interessantes que recolhi das intervenções que ouvi.

 

António Costa falou numa nova política pública, a que resulta da produção digital. Com toda a inovação tecnológica, naturalmente, alteram-se as linhas de produção e urge adaptar os trabalhadores a essas novas realidades. Desenvolver essa nova linha de trabalho, juntamente com os empregados, os parceiros sociais e as universidades é sem dúvida importante. António Costa disse, e julgo que todos subscrevemos, que as empresas precisam de ser capitalizadas não só financeiramente, mas também nos seus recursos humanos, que precisam de ser requalificados e melhorados.

 

Stefano Scarpetta da OCDE fez uma análise interessante às transições e metamorfoses das relações laborais e das oportunidades profissionais. Procurou demonstrar que, além das várias reformas em curso na sociedade, não tem de se dar por adquirida a ideia de que essas mudanças acarretarão o fim das oportunidades de emprego, com mais ou menos "uberização". Disse que podem mudar até os locais de trabalho, o tipo de relações laborais, que pode não se saber quem é o empregador, mas que oportunidades de emprego, pelo menos na proporção em que hoje existem na população mundial, continuarão a existir.

 

O ministro Vieira da Silva, numa linha de raciocínio semelhante, sublinhou duas notas: em primeiro lugar, que já desde a máquina a vapor que se diz que os avanços científicos e tecnológicos iriam ter graves consequências no emprego e não foi isso que se verificou. A outra nota é de que não foi a máquina a vapor ou a industrialização que trouxeram o progresso para as pessoas, mas sim o Estado Social que se desenvolveu concomitantemente a essa evolução técnica. Dizia o ministro que não foi a máquina a vapor que trouxe a proteção na doença, o direito a férias, o 13.º mês ou a licença de maternidade ou parentalidade.

 

A sessão visava refletir sobre o futuro do trabalho e sobre o trabalho do futuro e confesso que foram interessantes as intervenções. Ouvi também algumas referências críticas, com elegância, às opções políticas seguidas pelo Governo anterior. Naturalmente, há diferentes conceções para conseguirmos melhores níveis de produtividade na nossa economia. Dei comigo a pensar que, não falando dos debates parlamentares, que faria bem a muitas pessoas participarem em sessões com reflexão ou fóruns de temas como este à luz do pensamento de pessoas com diferentes formações e opções ideológicas. Se há lacuna que o mundo de hoje tem é o do pensamento ou, antes, de tempo para pensar, para refletir, para ponderar os argumentos, as variáveis, os fatores que permitam uma conclusão fundamentada para as questões que se apresentam todos os dias aos decisores. O caminho que este Governo está a seguir e o contraste com o Governo anterior ou, dito ao contrário, o caminho que foi seguido pelo Governo anterior em contraste com o deste Executivo, fornece boas pistas para refletirmos sobre as novas políticas que se exigem para o presente e para o futuro da governação de Portugal, das suas empresas e das escolhas dos empresários em nome individual e de muitas instituições que constituem o tecido económico-social do país.

 

Advogado

 

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