Leonel Moura
O grande artista do futuro não será humano
25 Maio 2012, 12:36 por Leonel Moura | leonel.moura@mail.telepac.pt
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Por esta altura estou em Aveiro a treinar para o TEDx de amanhã. Para quem não sabe, o TED é um tipo de conferência curta, incisiva e, se possível, espetacular. Por isso exige muita preparação e ensaio.
Por esta altura estou em Aveiro a treinar para o TEDx de amanhã. Para quem não sabe, o TED é um tipo de conferência curta, incisiva e, se possível, espetacular. Por isso exige muita preparação e ensaio.

Como só se fala com entusiasmo daquilo que se sabe, dedico os meus quinze minutos ao tema da criatividade das máquinas. A tese é simples. Com a evolução da inteligência artificial e da possibilidade de colocar máquinas no mundo através de meios de locomoção e sensores, vulgo robôs, estão criadas as condições para a criatividade artificial. Ou seja, as máquinas conseguem fazer coisas que não estão programadas. A essas "coisas" há quem chame uma nova forma de design, mas eu prefiro chamar arte. Outros, dizem que não é nada, porque o ser humano tem o exclusivo da criatividade. E como nestas matérias vamos sempre parar às estafadas questões das emoções, diz-se que a uma máquina falta consciência ou sensibilidade e que sem isso não há arte, só riscos aleatórios.

Não penso assim. A consciência ou a sensibilidade não são indispensáveis para se fazer arte. Aquilo que é realmente indispensável, na sequência da mudança de paradigma provocada pela arte do século 20, é a aceitação. Ou seja, é arte aquilo que se aceita como arte. Daí que Museus e Galerias estejam cheios de coisas estranhas que se aceitam como arte precisamente pelo facto de estarem num Museu ou Galeria.

A partir da arte abstrata, uma arte que não representa nada mas se representa a si mesma, os artistas não mais pararam de expandir o campo de expressão artística. Quando Marcel Duchamp compra na Quinta Avenida um vulgar urinol e o expõe com o título "fonte", tudo passa a ser possível. Já não é preciso usar as mãos para fazer a obra. Ela pode ser comprada em qualquer ferro-velho. Ou ser simplesmente o ar condicionado ligado de uma Galeria como fez um grupo de artistas ingleses nos anos 70. Ou alinhar pedras num campo. Ou, à maneira de Schwarzkogler, cortar o corpo com lâminas de barbear. Ou implantar uma orelha no braço como fez recentemente o artista australiano Stelarc.

Coloca-se então a questão de saber onde está, a cada momento, o limite, a fronteira, da arte possível. E quebrar essa linha é o papel do artista do nosso tempo. O resto é decoração e pieguice.

Dizer que as máquinas podem fazer arte está nessa linha de expandir campos. Neste caso para lá do humano, a grande fronteira de uma cultura que coloca o homem no centro e destino de todas as coisas. Bem sei que muita gente detesta estas ideias pelo seu declarado anti-humanismo. Mas, convenhamos, o humanismo é o pior do homem. É a ideologia do humano. Que lhe permite tudo fazer, sobretudo maltratar de forma bárbara todas as restantes espécies vivas.

Por isso gostaria, ao invés de falar de uma cultura da espécie humana, o que nos colocaria no mesmo plano de todas as outras espécies, cada uma com as suas particularidades e excelências. Mas vou mais longe. Defendo que as máquinas também são uma espécie. Uma nova espécie que está a emergir no planeta e que um dia nos ultrapassará em muitas das nossas capacidades. Já hoje as máquinas são bastante inteligentes. Fazem coisas que nós não conseguimos. Contas, interações, combinações e visualizações a uma velocidade impressionante. Já hoje as máquinas estão em todo o lado. A nossa sociedade sucumbiria a uma falha generalizada dos computadores, dos satélites, dos automóveis, dos telemóveis.

Mas, através de um acelerado processo de evolução de que somos o catalisador, depressa as máquinas vão adquirir uma forma de consciência e, mais determinante, uma forma de reprodução. Nesse momento deixaremos de as poder controlar. O botão off deixará de existir. E vão seguramente ser criativas. Pois basta olhar em redor e perceber que toda a vida, natural ou artificial, é por natureza criativa.

As máquinas já são uma espécie dominante no nosso planeta. Por enquanto damo-nos bem com elas. Salvo quando o computador bloqueia, nos irrita e lhe damos sapatadas. No futuro logo se verá. Mas não é importante. O medo nunca prevaleceu sobre o entusiasmo. Para o mal e para o bem, isto sim, é ser humano.



Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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