Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 03 de Outubro de 2016 às 19:39

O logro do "multitasking"

Ao saltitar perdemos foco, que demora a retomar, com perda de eficiência e muitos mais erros cometidos. A produtividade dos "multitaskers", dizem os investigadores, é 40% inferior aos que pegam numa coisa e a levam do princípio ao fim de um fôlego.

Saio do quarto decidida a ir tomar o pequeno-almoço, mas para ganhar tempo abro o mail no telefone e a importância de um assunto leva-me a sentar-me no degrau das escadas para lhe dar resposta, e já que trato de um, despacho dois ou três, até que o estômago aperta e me lembro de novo que não comi nada, fazendo o resto do caminho até ao frigorífico. E é no momento em que ponho a torrada a fazer que, pelo canto do olho, vejo a luz da máquina de lavar a piscar e, tomada de uma urgência, precipito-me para resgatar de lá a louça. Quando volto a torrada está fria, e trincando-a corro para apanhar o comboio, enquanto dedilho uma SMS a perguntar se posso ir ter com as minhas netas à tarde. É só o princípio de um dia em que salto de um assunto para o outro à velocidade da luz, várias janelas abertas em simultâneo no ecrã do computador, a que se soma a multifuncionalidade do telefone. Eu e milhões de outros portugueses.

 

Pagam-se contas, combinam-se reuniões, fazem-se relatórios, gere-se quem vai buscar as crianças à escola, discutem-se projetos estratégicos, enche-se a dispensa com uma encomenda online, consola-se a amiga que ficou sem namorado, atende-se a mãe, e finaliza-se o orçamento da empresa. Tudo intensamente, tudo com a sensação de que o mundo está para acabar e não pode ficar um assunto por resolver em cima da mesa.

 

Um dia ouvimos a palavra "multitask" e regozijámos, afinal a loucura em que andávamos metidos tem nome, estrangeiro ainda para mais. Exaustos, mas no bom caminho, quanto mais "multitasking" melhor, pensamos, e introduzimos a nova "habilitação" na primeira linha do CV.

 

Mas tudo isso foi anteontem. Porque ontem vieram dizer-nos que afinal tal coisa não existe. O cérebro não consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo, o que acontece é que salta de uma tarefa para a outra, com mais ou menos rapidez. Ou seja, adeus ao simultâneo: não conversamos na perfeição, enquanto escrevemos uma carta perfeita, nem tão-pouco falamos ao telefone enquanto conduzimos como pilotos de Fórmula 1. Pelo contrário. Ao saltitar perdemos foco, que demora a retomar, com perda de eficiência e muitos mais erros cometidos. A produtividade dos "multitaskers", dizem os investigadores, é 40% inferior aos que pegam numa coisa e a levam do princípio ao fim de um fôlego. Ah, pois é.

 

Não é a única desvantagem. A tentativa de suposto "multitasking" provoca muito stress, e mais stress significa mais cortisol a correr-nos nas veias, e o cortisol crónico, além de nos deixar ansiosos e num estado de alerta permanente, destrói o sistema imunitário, tornando-nos presas mais fáceis da doença.

 

Mas talvez o pior de tudo é que a nossa preciosa memória vai à vida. Trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo exige ter mais informação "aberta" e a uso, o que implica mais esforço da memória de curto prazo (ou memória de trabalho), que pode entrar em curto-circuito. Aquela sensação horrível da cabeça cheia a abarrotar, em que não cabe bem um alfinete, é real. Sem disponibilidade mental, acabam-se os eurekas, a capacidade de encontrar alternativas para os problemas. Julgamo-nos o Trabalhador do Ano mas, na realidade, é chapa cinco, mais do mesmo.

 

Um último argumento para enterrar o mito: os investigadores juram que a ilusão do "multitasking" pode custar-lhe a vida (não escreva SMS enquanto conduz), e antes dela a sua relação (namorar enquanto olha para o Facebook acaba mal). O segredo, dizem os que nos querem salvar a alma, é mesmo deixarmo-nos de acreditar em superpoderes e aprendermos a delinear prioridades. Vou fazer por isso.

 

Jornalista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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Anónimo 06.10.2016

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