Simon Johnson
Simon Johnson 12 de Outubro de 2016 às 20:00

O pensamento económico mágico de Trump

De acordo com o Wall Street Journal, nenhum economista proeminente aprovou Donald Trump ou está alinhado com o seu plano económico. Isso não é uma surpresa: esses economistas têm uma reputação a defender.

Donald Trump apresentou, finalmente, um plano económico detalhado. Da autoria de Peter Navarro (economista da Universidade da Califórnia-Irvine) e Wilbur Ross (um investidor), o plano afirma que Trump, como presidente, iria estimular o crescimento e reduzir a dívida nacional. Mas o plano tem por base premissas tão irrealistas que parecem ter vindo de um planeta diferente. Se os Estados Unidos adoptassem realmente o plano de Trump, o resultado seria um desastre imediato e absoluto.

 

No centro do plano está um grande corte de impostos. Os autores afirmam que isso impulsionaria o crescimento económico, apesar de cortes semelhantes no passado (por exemplo, na presidência de George W. Bush) não terem tido esse efeito. Há muitas evidências disponíveis sobre este facto, mas são todas completamente ignoradas.

 

O plano de Trump admite que a redução de impostos per se diminuiria a receita em pelo menos 2,6 biliões de dólares ao longo de dez anos - e os seus autores estão dispostos a citar a não-partidária Tax Foundation neste ponto. Mas a equipa de Trump afirma que essa redução seria compensada por um milagre de crescimento estimulado pela desregulamentação.

 

Infelizmente, as suas estimativas dos benefícios da desregulamentação são completamente exageradas. Análises independentes, como por exemplo a do Banco Mundial ou da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, mostram que os EUA não têm uma carga regulamentar alta sobre o sector não financeiro. O ranking Doing Business, do Banco Mundial, coloca os Estados Unidos no sétimo lugar, a nível mundial – não há grande margem para melhorias.  

 

Naturalmente, algumas empresas gostam sempre de reclamar sobre a regulação, e há uma abundância de números exagerados sobre o impacto de várias regras. Mas queremos mesmo basear a estratégia macroeconómica de um país em tais afirmações sem sentido?

 

Ao mesmo tempo, a desregulamentação financeira foi precisamente o que levou à crise de 2008 – e a um crescimento muito menor, aumento do desemprego e défices maiores. Trump parece determinado a repetir todos os grandes erros da era George W. Bush. A minha avaliação é que Trump iria incorrer em muito mais de 2,6 biliões de dólares de novas dívidas.  

 

No que diz respeito ao comércio, o plano económico de Trump não faz sentido de todo. Os supostos aumentos na receita do governo baseiam-se numa análise que é uma confusão de palavras – não me lembro de alguma vez ter visto um documento tão incoerente de um candidato importante de um partido. Tanto quanto consigo perceber, o argumento é que Trump vai eliminar, por magia, o défice comercial, e isto, por sua vez, vai aumentar milagrosamente o emprego. Esse tipo de pensamento devia estar limitado aos contos de fadas; se fosse experimentado no mundo real, ninguém viveria feliz para sempre.

 

Há alguns anos, James Kwak e eu escrevemos uma história sobre a política fiscal dos Estados Unidos e a dívida nacional - e chamámos-lhe White House Burning. A referência histórica é do momento, em 1814, em que o subinvestimento na capacidade militar do governo federal permitiu aos britânicos ocupar Washington, DC, onde queimaram a maioria dos edifícios oficiais, incluindo a Casa Branca (e do Tesouro e Congresso).

 

Mas o que queríamos assinalar, de forma mais ampla é que, desde os anos 1980, a abordagem do Partido Republicano às finanças do governo federal mudou. Em vez de ser a favor de limites ao défice e à dívida, a sua principal prioridade tornou-se o corte de impostos - independentemente das consequências.

 

O antigo vice-presidente Dick Cheney sublinhou que os "défices não importam" - o que significa que não houve consequências políticas imediatas de incorrer num défice orçamental e aumentar a dívida. Na administração de George W. Bush, os défices orçamentais e a dívida dos Estados Unidos subiram substancialmente, e a desregulamentação financeira extrema criou as condições para a maior crise financeira desde os anos 1930, o que aumentou ainda mais a dívida.

 

Trump não pode dizer a verdade sobre as implicações do seu plano para a dívida nacional. Em vez disso, a sua equipa construiu uma fantasia elaborada e bastante bizarra baseando-se - mas também indo muito além - de várias décadas de irresponsabilidade fiscal republicana.

 

O que realmente aconteceria é o seguinte: a grande redução de impostos ajudaria relativamente poucas pessoas, ao mesmo tempo que reduziria brutalmente as receitas do governo. Tarifas comerciais mais elevadas elevariam o custo das importações, o que teria um impacto negativo directo sobre os americanos comuns. Com guerras comerciais a eclodir, o crescimento diminuiria, não aumentaria - e os défices do governo seriam enormes. Ao mesmo tempo, a desregulamentação financeira permitiria o desenvolvimento de riscos em todo o nosso sistema bancário.

 

De acordo com o Wall Street Journal, nenhum economista proeminente aprovou Donald Trump ou está alinhado com o seu plano económico. Isso não é uma surpresa: esses economistas têm uma reputação a defender. Se subscrevessem o plano absurdo de Trump, iriam expor-se ao ridículo perante os seus colegas. Mais importante ainda, arriscavam-se a provocar danos reais de longo prazo no seu país.  

 

Simon Johnson é professor na Sloan School of Management do MIT e co-autor do livro "White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You".

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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Nós por cá temos o pensamento económico mágico de Mário Centeno e os seus 12 sábios. O famigerado cenário macro económico.

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