Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 23 de agosto de 2017 às 21:18

Obras públicas

Escrevi neste espaço há duas semanas sobre o dilema que se coloca ao Estado português e também aos agentes económicos privados sobre o novo aeroporto de Lisboa.
Teci essas considerações a propósito do boom turístico de excecional dimensão que Portugal tem conhecido e que tem provocado cada vez mais a saturação do aeroporto da capital. Como devem calcular, não fazia ideia de que o primeiro-ministro, pouco tempo depois, iria dar uma entrevista na qual faz uma proposta ao PSD de pacto sobre as grandes obras públicas que o Estado deve assumir para os próximos anos.

Compreendo todos os motivos que existem para justificar um distanciamento político firme entre oposição e Governo. Tem sido muito difícil ultrapassar as sequelas da inesperada reviravolta que aconteceu no sistema político português depois das eleições legislativas de 2015. Existem diferenças políticas significativas, existe um ambiente crispado, enfim as razões são as mais diversas.

Só que quer o PS quer o PSD deviam fazer uma retrospetiva das posições assumidas sobre essa matéria das grandes obras públicas durante as décadas que este regime já tem e procurar chegar a conclusões. É que quando estão na oposição, o PS e o PSD têm sempre razões que para eles justificam não fazerem acordo com quem está no governo. Ora, numa matéria como esta, isso é muito difícil de explicar e de perceber.

As grandes obras públicas são aquelas que se impõem por força da evolução de Portugal, da União Europeia e do Mundo. Estão neste caso, de facto, por razões óbvias, as enunciadas por António Costa como principais, ou seja, novo aeroporto de Lisboa, a questão da bitola europeia do caminho-de-ferro e os investimentos no Porto de Sines, que é uma das grandes apostas nacionais desde o anterior regime. Quem queira bem a Portugal, sabe que o país precisa de resolver bem esses temas. Assim sendo, e esperando o PS e o PSD vir a ser governo, certamente que terão de lidar com essas opções que se impõem à comunidade nacional. Haver um entendimento entre os dois maiores partidos sobre essas matérias, só facilita a vida aos portugueses e a Portugal.

Quanto mais consenso existir, mais tempo se poupa, menos polémica se gera e, inapelavelmente, menos dinheiro também será despendido. Se cada vez que entra um governo, se põem em causa decisões como essas, Portugal perde. Para o turismo, para as exportações, para a economia portuguesa em geral, é fundamental que exista acordo. Celebrar acordos nesta matéria, como no sistema financeiro, como na política externa, como na política de Defesa, só eleva os dirigentes que os celebrem e o respeito que os portugueses por eles têm. Não é por haver acordo nesses grandes desígnios nacionais que alguém se convence que não são grandes as diferenças entre os vários partidos.

Aquilo de que todos gostaríamos é que no pós-eleições autárquicas se caminhe no sentido de estabelecer um acordo sobre essas matérias. Esperemos que a serenidade impere depois da subida de temperatura que naturalmente existirá até 1 de Outubro e mesmo depois com a entrega do OE. Mas, quando a temperatura amainar, é bom que os dirigentes partidários se convençam de que a melhor prova de segurança e de convicção nas suas diferenças e naquilo que caracteriza cada uma das forças políticas que dirigem, é exatamente não terem problemas em fazerem acordos nessas matérias.

Dar confiança a mais aos adversários, se me permitem a ideia, é exatamente ter a reação epidérmica, a reação automática, a reação que demonstre algum tipo de ressentimento. Várias vezes o Governo tem tratado mal a oposição e a oposição tem sido excessiva com o Governo. Isso faz parte, com os devidos limites do jogo democrático. Mas aqui, acima do jogo democrático, está o superior interesse nacional, que exige pôr as bandeiras de lado e se seja capaz de assinar o que for bom para todos nós.

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Anónimo 24.08.2017

Excelente artigo. Não esquecer o túnel Trafaria Belém, obra fundamental para acabar com o atentado ambiental e de perda de produtividade que são os permanentes engarrafamentos na ponte sobre o Tejo.

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