Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 23 de janeiro de 2017 às 21:05

Ocupar o poder sem exercer o poder

Para quê estar no poder se não se exerce o poder? Para ocultar que a verdadeira natureza do PS se revelou quando teve maioria absoluta, sem precisar de oscilar entre a direita e a esquerda.

A FRASE...

 

"Foi por causa deste estilo de governo, com a mão esquerda de manhã e a direita à tarde, que os governos socialistas de Soares, de Guterres e de Sócrates caíram em seu tempo. O PS tem de facto várias identidades, (…) muda de roupa com facilidade."

 

António Barreto, Diário de Notícias 22 de Janeiro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Na primeira crise política em regime de democracia constitucional, no final de 1977, foi colocada pelo Presidente da República a condição da formação de uma maioria estável e coerente para a solução da queda, na Assembleia da República, do governo minoritário do PS. Tratava-se de evitar que uma estratégia de alianças oscilantes permitisse a permanente ocupação do poder pelos socialistas, mas com a contrapartida de não ser possível realizar uma estratégia de modernização e de desenvolvimento: para se manter no poder, o PS abdicava de exercer o poder. A fórmula de alianças oscilantes proposta pelo PS era uma fórmula instável (por isso, o primeiro governo minoritário do PS caiu) e que não podia ser coerente (o que é oscilante não pode ter uma linha de orientação estratégica) porque depende das oportunidades e conflitualidades conjunturais. Este foi o contexto que permitiu a Sá Carneiro, em 1979, propor a fórmula da Aliança Democrática e da bipolarização com que conquistou duas maiorias absolutas, em 1979 e em 1980.

 

Quatro décadas depois, não se aprendeu nada e não se esqueceu nada, repetem-se os mesmos erros como se fossem propostas novas. Não são propostas novas, a estratégia de charneira é uma fórmula de dupla negação, nem direita nem esquerda, que pretende fazer do partido que se coloca na fronteira entre a direita e a esquerda o partido do poder indispensável. Mas é o mesmo erro, porque o partido do poder indispensável não pode governar, não quer ser de direita e não consegue ser de esquerda: o partido do poder indispensável condena a economia e a sociedade à dívida para ocultar a estagnação.

 

Para quê estar no poder se não se exerce o poder? Para ocultar que a verdadeira natureza do PS se revelou quando teve maioria absoluta, sem precisar de oscilar entre a direita e a esquerda.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Jose Monteiro Há 3 semanas

Uma velha questão.
De tempos a tempos, o regresso da Ilusão do Poder.

Anónimo Há 3 semanas

E qual é a verdadeira natureza do PS?

Fiquei sem perceber.

Talvez desenvolva o assunto no próximo artigo, espero.