Jorge Marrão
Jorge Marrão 17 de abril de 2017 às 20:43

Onde está a salvação?

Hoje não só não podemos recusar o que pedimos aos credores oficiais, como pretendemos que passem à condição de "acionistas perdedores".

A FRASE...

 

"Passos admite que as previsões do Governo são 'mais realistas'."

 

Negócios, 17 de Abril de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Os momentos políticos atuais são um intervalo de uma peça de teatro. Já assistimos à cena da derrocada (bancarrota), à limpeza dos escombros (troika), mas não percebemos o que vai ser erigido em substituição (a nova fórmula governativa e a consequente economia e sociedade). Não há coro para uma tragédia, mas há episódios que podem ser trágicos. Na nova diplomacia televisiva, o representante português afrontar um perdedor holandês em plena "ágora" financeira, noutros tempos, traduzir-se-ia em incidente diplomático. Hoje é uma fulanização com direito de antena. Memorizamos a cena, mas sem consequências relevantes. Os "ratings" que querem dar à nossa dívida pública podem ser trágicos, mas a cena pode prolongar-se sem fim à vista.

 

Vivemos suspensos e fragilizados de acontecimentos externos, mas teimamos em não aceitar as nossas responsabilidades. Salazar quando recusou o empréstimo da Sociedade das Nações preferiu equilibrar as finanças por meios próprios a sujeitar-se a uma tutela estrangeira. Hoje não só não podemos recusar o que pedimos aos credores oficiais, como pretendemos que passem à condição de "acionistas perdedores".

 

A Europa, vulgo Comissão Europeia, e as suas instituições desrespeitaram-se porque se afastaram ou intencionalmente arredaram-na da legitimidade democrática. Bruxelas não é apreciada como uma união que a todos compreende, mas já é uma burocracia com regras próprias.

 

Há ruído comunicacional suficiente nos bastidores de Portugal, da Europa e do mundo, mas insuficiente informação sobre o caminho a trilhar. Nem as forças de esquerda que apoiam o Governo engoliram ou digeriram a Europa e o euro - "tão contrários correm destino e vontade, que planos se quedam sempre por metade" (Shakespeare) - nem a Europa e o euro compreenderam, na plenitude, o impasse espanhol, a paralisação reformista de Itália, a "syrização" da Grécia e a inovação política portuguesa, nem os extremismos europeus nascentes. Procura-se a salvação, sem crucificação. Não é bíblico.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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surpreso 17.04.2017

Comemos,graças aos credores.A rapaziada tenta esquecer esta verdade elementar