Kaushik Basu
Kaushik Basu 30 de outubro de 2017 às 14:00

Os bancos centrais devem trabalhar juntos – ou sofrer sozinhos

As políticas monetárias expansionistas que permitiram às economias voltar ao crescimento estão a atingir os seus limites e ameaçam agora perturbar a recuperação criando condições para outra crise financeira.

O crescimento global parece estar a avançar, de forma lenta mas segura, no caminho da recuperação. O último World Economic Outlook, do Fundo Monetário Internacional, prevê um crescimento global de 3,5% este ano, depois dos 3,2% de 2016.  Mas há um problema: as políticas monetárias expansionistas que permitiram às economias voltar ao crescimento estão a atingir os seus limites e ameaçam agora perturbar a recuperação criando condições para outra crise financeira.

 

Nos últimos anos, os grandes bancos centrais do mundo adoptaram políticas monetárias expansionistas sem precedentes, incluindo o que um relatório recente do Deutsche Bank chama de "mínimos históricos de todos os tempos nas taxas de juro". Isso, juntamente com a flexibilização quantitativa em larga escala, injectou uns gigantescos 32 biliões de dólares na economia global nos últimos nove anos. Mas essas políticas não convencionais estão a tornar-se uma mau equilíbrio da teoria dos jogos: cada banco central pode ganhar, mantendo as taxas de juro baixas mas, colectivamente, a sua abordagem constitui uma armadilha.

 

No mundo globalizado de hoje, uma ligeira redução dos juros por parte de um banco central individual pode gerar alguns benefícios, começando pelo enfraquecimento da moeda e, consequentemente, o aumento das exportações. Mas quanto mais países empregam essa estratégia, maior a pressão sobre o sector bancário. Isso já é evidente na Europa, onde os preços das acções dos bancos caíram de forma constante nos últimos meses.

 

Além disso, taxas de juro baixas – e, especialmente, taxas negativas - tornam caro manter o dinheiro parado, levando os investidores a procurarem investimentos mais arriscados com maiores retornos potenciais. Como resultado, as obrigações garantidas por empréstimos (CLOs) mais do que duplicaram este ano, atingindo um valor de mercado global de 460 mil milhões de dólares. Isto tem muitas semelhanças com o aumento das obrigações de dívida colaterizada (CDOs) que ajudaram a impulsionar a crise financeira de 2008. Embora o mundo tenha implementado um sistema de controlo melhor para as CLOs do que para as CDOs antes da crise, a tendência continua a ser profundamente preocupante.

 

Por fim, taxas de juro persistentemente baixas podem fazer com que as pessoas se preocupem mais com os seus fundos para a reforma, levando-as a poupar mais. Em vez de impulsionar o consumo, como previsto, os estímulos monetários podem criar um ambiente que atenua a procura, enfraquecendo as perspectivas de crescimento económico.

 

Hoje, nenhum país pode conduzir o mundo para longe desta armadilha. Os Estados Unidos, que poderiam ter assumido esse papel no passado, cederam a sua posição de liderança global nos últimos anos - um processo que foi bastante acelerado durante o primeiro ano da presidência de Donald Trump. Além disso, o G20 perdeu força, recentemente, no apoio a uma coordenação mais estreita das políticas monetárias e orçamentais entre as principais economias avançadas e emergentes do mundo.

 

Talvez um novo grupo dos principais ‘players’ - o GPrincipais? – precise de intensificar os seus esforços, antes que seja tarde demais. Para obter a motivação necessária, os responsáveis pelas políticas monetárias devem recordar o "dilema do viajante", uma parábola da teoria dos jogos que evidencia as armadilhas da racionalidade individual.

 

A parábola fala de um grupo de viajantes, que regressa a casa levando peças de cerâmica compradas numa ilha remota. Ao descobrirem que as peças foram danificadas na viagem, exigem uma compensação da companhia aérea. Como o gerente da companhia aérea - conhecido como guru financeiro - não faz ideia do preço das peças de cerâmica, é necessária uma solução criativa para determinar o montante apropriado da compensação.

 

O gerente decide que cada viajante deve anotar o preço - qualquer número inteiro entre 2 e 100 dólares – sem conferenciarem uns com os outros. Se todos escreverem o mesmo número, esse número será entendido como o preço certo e, assim, a compensação que cada viajante receberá. Se escreverem números diferentes, o número mais baixo será tomado como o preço correcto. A pessoa que escrever o número mais baixo receberá 2 dólares adicionais, como uma recompensa pela honestidade, enquanto qualquer pessoa que escreva um número maior receberá menos 2 dólares como castigo pela batota. Se algum escrever 80 e outro 90, receberão 82 e 78, respectivamente.  

 

Inicialmente, os viajantes ficam muito satisfeitos. A cerâmica não tem qualquer valor monetário real, mas se cada um escrever 100 dólares, todos podem receber 100 dólares de compensação. Um viajante, no entanto, percebe rapidamente que escrever 99 dólares seria uma opção melhor, porque ganharia aquela recompensa extra de 2 dólares e, portanto, um total de 101 dólares. No entanto, esse viajante percebe rapidamente que outros devem ter tido a mesma ideia, e então decide colocar 98 dólares. Mas e se os outros tiveram o mesmo pensamento? Talvez seja melhor pôr 97.

 

No final, apanhados por esta lógica inexorável, todos os viajantes acabam por escrever e receber 2 dólares. O resultado pode parecer um desastre, mas também é a escolha mais racional - o "equilíbrio de Nash" do jogo do dilema do viajante. É claro de onde veio a alcunha de guru financeiro.

 

A moral da história é simples. A mão invisível do mercado nem sempre leva os agentes que seguem, individualmente, os seus próprios interesses a um resultado colectivamente desejável. O altruísmo e o respeito pelos outros devem ter o seu papel. Se não existem, pelo menos os jogadores devem coordenar as suas decisões. Se os banqueiros centrais não levarem essa mensagem muito a sério, vão acabar por ter de varrer muita cerâmica partida.  

 

Kaushik Basu, antigo economista-chefe do Banco Mundial, é professor de Economia na Cornell University.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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