João Costa Pinto
João Costa Pinto 24 de Outubro de 2016 às 19:08

Os bancos e o futuro do euro - (LXXXII)

O arrastamento das dificuldades e dos problemas enfrentados pela generalidade dos bancos e os seus reflexos sobre os mercados bancários estão a ter um impacto global de grande complexidade.

1. A situação económica da Europa continua marcada por bloqueamentos estruturais e por políticas públicas fragmentadas e doutrinariamente influenciadas pela austeridade orçamental do ordoliberalismo alemão. Deste modo, as economias do euro permanecem incapazes de tirar partido de um contexto excepcionalmente favorável - baixo preço da energia, taxas de juro historicamente baixas, liquidez abundante, depreciação do euro. Como resultado, o relançamento na zona do euro tem sido lento e incipiente e o crescimento, anémico. Evolução que está a ter um efeito muito complexo: alimenta as pressões sociais e políticas que ameaçam fragmentar a Europa do euro; mantém as economias devedoras numa situação de forte dependência das intervenções não convencionais do BCE. Mas, além disso, reduz a capacidade das economias mais endividadas para - de forma autónoma - procurar soluções para o endividamento excessivo e para os problemas que estão a afectar os seus bancos. Questões que assumem uma importância crítica nas economias mais frágeis, como é o nosso caso. Nestas, o peso da dívida e os problemas que estão a travar os fluxos de crédito reduzem o crescimento, o que, por sua vez, afecta o acesso ao financiamento e cria dificuldades à regeneração dos balanços dos bancos. Estou convencido de que a incapacidade da Europa para procurar soluções coordenadas para estes problemas constitui uma das principais ameaças à integração financeira e ao próprio euro. Em particular, o arrastamento das dificuldades e dos problemas enfrentados pela generalidade dos bancos e os seus reflexos sobre os mercados bancários estão a ter um impacto global de grande complexidade: por um lado, estão a pôr à prova o inacabado edifício jurídico e institucional com que foi lançada a União Bancária, como resposta à crise financeira. Na verdade, a sua preservação depende em larga medida do afluxo ao sector bancário - em tempo útil - dos capitais privados necessários à preservação dos níveis de solvabilidade dos bancos. O que está a ser dificultado pela baixa rentabilidade do sector e pelo denso quadro regulatório em que os bancos têm de actuar; por outro lado, a situação actual de muitos bancos sistémicos - a braços com um peso excessivo de créditos improdutivos (NPL*) e com necessidade de reforçarem os seus capitais - está a reduzir a eficácia da política monetária, na medida em que enfraquece a transmissão dos seus impulsos aos destinatários finais - consumidores, produtores e investidores. Deste modo, parte da liquidez que o BCE está a injectar, fica acumulada no balanço dos bancos ou é por estes canalizada para aplicações com menor consumo de capital. Efeitos naturalmente potenciados pela queda generalizada das expectativas e do investimento; por último, é importante ter presente que a participação dos mercados financeiros da Europa do euro no movimento de globalização depende sobretudo dos bancos que respondem por mais de 70% do financiamento global. Neste contexto, a estabilização dos mercados bancários é crucial, dada a atrofia dos mercados de capitais.

2. É à luz deste quadro - e tendo presente o que referi no último artigo sobre a transformação do negócio bancário - que devemos avaliar a situação dos nossos bancos e a nossa capacidade para influenciar a reorganização do mercado bancário doméstico.

(*)NPL - "No Performing Loans"  

Economista

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Só faltam 18,ó João...