Fernando  Sobral
Fernando Sobral 12 de abril de 2017 às 20:15

Os desafios do futuro próximo

Num futuro próximo todos seremos menos ricos e teremos de refrear o consumo. Mas isso ninguém quer ouvir. Nem mesmo neste jardim à beira-mar especado.

Hipnotizados pelos disparates do senhor Dijsselbloem, Portugal dispensa muitas vezes olhar à volta e discutir o que verdadeiramente importa.

 

Esta semana era importante ler o artigo de Wolfgang Munchau no "Financial Times" sobre as eleições francesas e italianas e as escassas possibilidades destes países saírem do euro. O candidato a ministro das Finanças italiano pelo partido de Beppe Grillo tem 30 anos e diz que fará um referendo para sair do euro mas que antes fará uma política social. Para Munchau é simples: não há uma saída ordeira do euro. Segundo ele o euro ou cairá por acidente (depois de uma reacção dos mercados, como esteve perto de acontecer em 2012) e de forma quase apocalíptica, ou não cairá. Porque o euro é uma prisão. Feita de forma simples para os crentes: puseram-nos nele e obrigaram-nos a endividar-nos nessa moeda. Ou seja, como diz Munchau, há um problema de dívida e de denominação dessa divida. Com uma nova moeda, o que aconteceria às obrigações soberanas? E se, com medo de uma decisão política dos eleitores, que escolhessem alguém que quer tirar o país do euro, os investidores actuassem? Como iria o BCE apoiar um sistema financeiro num país onde o novo líder político defende que a primeira coisa a fazer é um referendo para sair do euro?

 

É um tema para pensar em Portugal. Especialmente quando parece evidente que muita da solução passa por repensar a dívida externa e reestruturá-la. Mesmo que isso seja ruído que doa a muitos ouvidos. Sobre a Grécia já se percebeu que, com a continuação de "reformas" destas o custo social da austeridade vai destruir o país de vez. Os credores salvaram os seus bancos (a começar pela Alemanha e França, que emprestaram para que os seus bancos recebessem os seus créditos) e, eventualmente, os seus contribuintes. Mas já se percebeu que sem alívio da dívida este é um caminho sem fim: empréstimos quando o doente está quase sem oxigénio e, depois, volta-se ao mesmo. Não há futuro. Portugal, não estando na situação da Grécia, tem problemas. Que são visíveis: para se baixar o défice a níveis de conforto dos credores, tem de se cortar no investimento (é divertido ouvir agora a oposição pedir mais investimento público, ou seja aquele que cortou nos anos da troika, e que acha que ideologicamente é dispensável). Os desafios estão à nossa frente.

 

Até porque eles fazem parte de um quadro mais complexo que tem a ver com a digitalização crescente e as mudanças climáticas, que vão impor grandes alterações no mundo. Ou seja, eles vão impor a criação de um novo modelo económico onde terá de ser garantido um mínimo de rendimento para que o fim do trabalho (substituído por máquinas a curto prazo) não provoque um colapso total da sociedade. Mas, sobre isso, não se fala em Portugal. Num futuro próximo todos seremos menos ricos e teremos de refrear o consumo. Mas isso ninguém quer ouvir. Nem mesmo neste jardim à beira-mar especado. 

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