José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 15 de março de 2017 às 20:31

Os deuses devem estar doidos 

Euforia e medo são elementos incontornáveis do comportamento humano. São também péssimos conselheiros de investimento. Pois, nem tudo corre sempre bem ou sempre mal: os deuses podem pregar uma ou outra partida, mas não são doidos.

"The Patriots' win probability for much of the second half of Sunday's Super Bowl was near rock-bottom. Then, suddenly, it wasn't."

 

The Boston Globe, 7 de fevereiro de 2017

Einstein disse que Deus não joga aos dados, mas isso é porque não precisa, pois o futuro a Ele pertence. Para os mortais, a quantificação da incerteza é crucial. Por esse mundo fora são despendidos vastos recursos na caracterização probabilística do futuro. Vale a pena? Bom, diria que o futuro continuará a ser difícil de prever. Que o diga quem se dedicou a prever alguns dos eventos mais marcantes no passado recente.

 

A começar pelo futebol. Quem tivesse apostado €10 na vitória do Leicester City na Premier League no início da época teria arrecadado a pequena fortuna de €50.000 no fim do campeonato, o que corresponde a uma probabilidade de 0,02%. Número semelhante foi apurado para a possibilidade de os Patriots conseguirem recuperar a enorme desvantagem face aos Falcons que se verificava perto do final do Super Bowl de 2017. Mas a reviravolta aconteceu.

 

As surpresas não se ficaram pelo desporto. Para os dois principais eventos políticos de 2016, o desfecho foi diametralmente oposto ao vaticinado pelos especialistas. O Brexit ganhou apesar da média das sondagens atribuir a esse resultado 35% das intenções de voto na véspera do referendo. Do outro lado do Atlântico, a Newsweek pôs Clinton na capa com o título: "Madam President", enquanto o New York Times, já depois do fecho das urnas, dava uma probabilidade de vitória a Trump de 20%, cifra que foi revista para 100% passadas escassas horas.

 

O impacto destes falhanços de previsão na psique dos investidores foi dramático, sobretudo na Europa, onde parece que ninguém está certo de nada no que concerne aos vários atos eleitorais que se avizinham. Esta incerteza trouxe o receio de implosão do euro de volta à liça, ainda que num registo menos histriónico do que nos idos de 2011/2012, mas suficiente para desencadear uma fuga silenciosa de capitais da periferia, sobretudo a partir de Itália.

 

Euforia e medo são elementos incontornáveis do comportamento humano. São também péssimos conselheiros de investimento. Pois, nem tudo corre sempre bem ou sempre mal: os deuses podem pregar uma ou outra partida, mas não são doidos.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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