Fernando  Sobral
Fernando Sobral 16 de outubro de 2017 às 19:45

Os deuses do fogo

Quando o pinhal de Leiria arde, só sobra uma questão: como é possível tanta incúria, desorganização e incompetência?

Na mitologia grega e romana, Vulcano (ou Hefesto) era o deus do fogo, do trabalho e da metalurgia. Era feio, coxo e manco. Sendo o deus do fogo, muitos templos à volta de Roma foram construídos em sua homenagem e muitos sacrifícios eram feitos em sua honra. Assim, os romanos atiravam pessoas para o fogo ou, de forma ainda mais insidiosa, para as crateras dos vulcões. Tentava-se assim saciar a fome de sangue de Vulcano. Em Portugal, sacrifica-se tudo ao fogo: homens e mulheres, animais, diversidade ambiental. E, sobretudo, queima-se o futuro. Não há já explicações, nem relatórios, que extingam o fogo que consome o país e, sobretudo, a sua alma. Era previsível o que aconteceu nestes dias. Basta ler o relatório do IPMA dos primeiros dias de Outubro: "O mês de Setembro de 2017 em Portugal Continental foi o mais seco dos últimos 87 anos. (…) 81% do território estava em seca severa e 7,4% em seca extrema. (…) O índice de água no solo, a 30 de Setembro, em grande parte das regiões do interior e no Sul de Portugal continental, apresentava valores inferiores a 20%." Era preciso mais para se perceber o que ia acontecer? Ou esperava-se que Zeus, o deus da chuva, tudo resolvesse?

Podem agora buscar-se culpados, perguntar-se pelas conclusões do relatório de Pedrógão Grande, mas isso não resolve o essencial. Quando o pinhal de Leiria arde, só sobra uma questão: como é possível tanta incúria, desorganização e incompetência? O calor e o vento não explicam tudo. No meio da terra queimada (e da política que a permitiu há décadas), só resta uma solução: criar uma política de prevenção séria, corpos profissionais de sapadores e bombeiros e uma estrutura única de comando. E, para já, sentar à mesma mesa os intervenientes e incutir, nem que seja a pontapé, que estes interesses político/partidários (que vão da protecção civil aos bombeiros) e de interesse pessoal e económico têm de acabar. O aquecimento global vai transformar Portugal, se nada for feito, num deserto. É isto que querem?

 

Grande repórter 

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