Fernando  Sobral
Fernando Sobral 21 de Novembro de 2016 às 19:31

Os diabos e as pós-verdades

Em Portugal, já não se discute onde está o Wally. Pergunta-se onde está o Diabo, ou o Diabinho, na sua versão mais carinhosa e fofa. Há respostas para todos os paladares. E disfarces para todos os que se julgam envolvidos no jogo.

Mas enquanto a classe política se entretém com esta versão de "paintball" pacóvia, lá fora as preocupações são outras. O dicionário Oxford considerou como palavra do ano um neologismo: a pós-verdade. Traduzido para a linguagem clara isso significa que os factos objectivos influem cada vez menos na formação da opinião pública do que a emoção e a crença pessoal. O momento pós-verdade nacional é a fábula vergonhosa da CGD. Mas poderia contaminar muitas outras coisas que vamos assistindo em redor, agora que as emoções ocupam o território outrora ocupado pela reflexão e pela interrogação. Mas este é o mundo do Twitter e do Facebook: um bom insulto vale mais do que uma reflexão séria ou irónica. E a imprensa entrou neste afã suicidário: alimenta-se das "redes sociais", assinando a sua morte perante o seu fascínio pela tecnologia que a destrói.

 

Olhe-se à volta: o Brexit ou a eleição de Donald Trump são encaradas como pós-verdades. Embora, no caso de Trump, e olhando para a equipa que se está a constituir na Casa Branca, é caso para dizermos que se esta é a verdade, tragam-nos depressa uma mentira. A questão central é como a democracia vai sobreviver a este afluxos de "pós-verdades", onde os cidadãos baseiam as suas convicções em afirmações que sentem ser verdadeiras, mas que não se apoiam na realidade. Esta tendência destruidora está agora a afectar todos os contratos sociais, a discussão serena ou a predominância da ética e da moral. Estamos a construir uma outra verdade onde chocam os ovos do populismo e do radicalismo. Nada que este mundo demasiado desigual não estivesse a fermentar. Trump traz mais do que uma pós-verdade ao mundo: traz a verdade nua e crua. A Portugal, onde as notícias chegam mais devagar, também chegará um dia.

 

Grande repórter

 

Como é que a democracia vai sobreviver a este mundo de pós-verdades?

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comentários mais recentes
Luis Há 1 semana

O diabinho veio e toda a gente sabe onde ele está. O Traste de Massa Má está possuido pelo diabinho daí tanta imbecilidade a granel. Tanto o evocou que ele veio mesmo e está a pô-lo cada vez mais careca.