Fernando  Sobral
Fernando Sobral 03 de julho de 2017 às 19:58

Os dilemas do Qatar

Como se esperava o Qatar reagiu negativamente ao ultimato da Arábia Saudita. É-lhe impossível desligar a Al-Jazeera, afastar a base turca ou alienar a linha aberta com o Irão. Que irá acontecer?

A resposta do Qatar às humilhantes condições colocadas pela Arábia Saudita e pelos seus aliados para aliviarem o bloqueio ao país é a esperada. Doha rejeitou-as, afirmando que "o mundo não é governado por ultimatos". Não se esperava outra coisa: se o Qatar se submetesse ao ultimato saudita, deixaria de ter vida própria.

 

O bloqueio é inquietante: 90% do Qatar é um deserto e 40% das suas necessidades alimentares vêm através da fronteira saudita. É óbvio que os objectivos de Riade, por detrás da retórica da "luta contra o terrorismo" (que foi orquestrada durante a visita de Donald Trump) são claros: calar a voz incómoda do Qatar, em termos de activa política externa, e o canal Al-Jazeera, que não tem a ver com a "voz única" que se escuta na menor das democracias da região, exactamente a Arábia Saudita. Além de querer isolar ainda mais o Irão, com quem Doha tem construído uma ligação diplomática. A par disso Riade não esconde que quer afastar o líder do Qatar, o xeque al-Thani. Há dois problemas na estratégia saudita: o Qatar acolhe a maior base americana na região e a Turquia também ali tem uma base que, com facilidade, pode albergar 5000 soldados.

 

Há também um outro factor: todos gostariam de deitar a mão ao gás natural qatari. A estratégia da Arábia Saudita, onde há o dedo do príncipe herdeiro, responsável pela fraticida guerra no Iémen que tem causado milhares de vítimas inocentes e onde, por via disso, alastra uma epidemia de cólera, parece ser clara: mostrar que é o poder supremo no mundo árabe.

 

Para isso utiliza os seus recursos financeiros e conquista aliados na região e fora dela (o acordo de compras de armas aos EUA, num valor estratosférico, faz parte dessa forma de actuar). Basta pensar que o Iémen, que não tem companhia aérea, dispensou os serviços da Qatar Airways e as Maldivas receberam uma promessa de investimento de 300 milhões de dólares e mais 100 milhões para 10 mesquitas de "grande nível".

 

As acusações ao Qatar parecem, por isso, uma espécie de comédia trágica, sabendo os antecedentes da política externa saudita. A diversificada política externa do Qatar, que soube aproveitar muito bem a importância e abertura da Al-Jazeera, garantindo modernidade ao país, tem sido uma dor de cabeça para Riade. Mas, para já, mais do que tudo é a ambição de Riade de ser a líder do mundo árabe e de passar a gerir o gás natural do Qatar que move os seus intentos.

 

Japão: Yuriko Koike, o novo problema de Abe

 

O Japão vive um momento crucial. Com a crescente influência da China na região, as ameaças de Trump de poder  entrar numa guerra comercial e a irresponsabilidade de Kim Jong-un da Coreia do Norte, a Shinzo Abe só faltava acontecer mais um problema: a governadora de Tóquio, Yuriko Koike. Garantindo a liderança da capital japonesa, Koike surge como um potencial desafio para Shinzo Abe. Koike tem colocado questões embaraçosas para o Partido Liberal Democrático. Nomeadamente sobre a derrapagem dos custos das Olimpíadas de 2020 e da transferência do mercado do peixe de Tsukiji, que afectam o antigo governador, Shintaro Ishihara, um dos homens mais poderosos do PLD. A sua vitória no domingo, com estas propostas de reforma, são uma dor de cabeça para Abe e para a política que tem seguido nos últimos anos.

 

Koike venceu fora do âmbito do PLD, que abandonara no final de Maio. Por outro lado impôs-se como mulher num universo político dominado por homens. E ele tem agora a capacidade de impor mudanças, algo que o corroído governo de Abe, muito afectado por escândalos, não tem. Ela surge como uma alternativa a Abe, algo que não parecia existir na política japonesa. Mais do que isso ela vem pôr em causa a hegemonia política do PLD desde 1955 (apenas interrompida brevemente em 1993 e 2009). Ela simboliza também um cansaço dos japoneses com o mundo político e, de alguma maneira, com a falta de implementação das "Abenomics". As mudanças estruturais de que a economia japonesa necessita não se têm realizado. Abe está focado na reforma constitucional, algo que não tem sido muito apreciado, num momento em que os salários estagnaram e a deflação persiste. Koike poderá ser o símbolo das mudanças que a sociedade japonesa necessita, desde libertar o país da maior dívida pública mundial até a uma nova política energética? O tempo o dirá.

 

China: pesca em São Tomé

 

A província de Fujian e São Tomé e Príncipe vão realizar estudos visando a actividade de pesca industrial águas territoriais do arquipélago, segundo o director-geral das Pescas são-tomense, João Pessoa. Dezenas de navios da União Europeia pescam nas águas territoriais são-tomenses ao abrigo de um acordo de captura do atum que rende ao arquipélago cerca de 1,2 milhões de dólares anuais, limitando-se as pequenas embarcações de São Tomé e Príncipe, "as canoas", à pesca artesanal de sobrevivência.

 

China/Países lusófonos: mais comércio

 

O comércio entre a China e os países de língua portuguesa registou um crescimento homólogo de 40,41% de Janeiro a Abril, tendo-se situado em 34 172 milhões de dólares,. Nos primeiros quatro meses do ano a China exportou para os oito de língua portuguesa produtos no valor de 9755 milhões de dólares e importou desses mesmos países bens no valor de 24 416 milhões de dólares. Portugal teve trocas comerciais com a China no montante de 1619 milhões de dólares (-5,11%), com vendas chinesas no valor de 1035 milhões de dólares (-5,11%) e compras no montante de 583 milhões de dólares (+43,61%).

 

Japão: investimento da Huawei

 

A chinesa Huawei Technologies vai começar a utilizar a sua primeira fábrica no Japão, utilizando a tecnologia deste país para seduzir consumidores de mercados maduros. Será também um exemplo para o investimento de outras empresas de tecnologia. A Huawei utilizará uma antiga fábrica da DMG Mori em Funabashi e a produção deverá iniciar-se este ano, com um investimento inicial de 44,5 milhões de dólares. A Huawei é a terceira maior empresa mundial de "smartphones" e busca agora aumentar a sua quota de mercado no Japão. Como os custos do trabalho estão a subir na China, a produção no Japão é agora mais competitiva. 

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Anónimo 04.07.2017

A primeira maior dívida pública mundial tem como maiores credores entidades do próprio país e paga-se a si própria com o forte, vasto e dinâmico tecido empresarial da nação. Nada tem a ver com a quarta maior em percentagem do pib, a portuguesa.

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