Os erros na medição do desenvolvimento

Precisamos de focar a agenda de desenvolvimento nas questões principais e nas áreas em que cada dólar gasto possa alcançar o máximo para a humanidade.

Uma nova tabela de desempenho que tem como objectivo avaliar os países no que respeita aos progressos no desenvolvimento diz-nos pouco sobre a forma como estamos a lutar contra os maiores desafios da humanidades. Em vez disso, destaca as deficiências da agenda de desenvolvimento global de hoje.

 

O novo relatório, liderado por Jeffrey D. Sachs e publicado pela Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e pela Bertelsmann Stiftung da Alemanha, fornece um painel, com cores, para demonstrar como cada país está a progredir na implementação dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) - a agenda que sucedeu os altamente eficazes Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODMs) há 18 meses. Verde indica sucesso em todos os indicadores de um objetivo; amarelo, laranja e vermelho apontam para distâncias crescentes do objectivo.

 

Pode esperar descobrir, a partir desta classificação, o quão eficientes estão a ser os países ricos na alocação das suas ajudas ao desenvolvimento e com que grau de sucesso os países mais pobres estão a gastar os seus próprios fundos, para garantir que mais pessoas tenham acesso a educação, saúde, segurança alimentar e um ambiente seguro e limpo - os desafios fundamentais do desenvolvimento do planeta.

 

Em vez disso, o índice mostra-nos que o Camboja - onde mais de 20% da população vive com menos de 1,90 dólares por dia – está a verde, superando uma Espanha a laranja na implementação do ODS 1: "Acabar com a pobreza em todas as suas formas em todos os lugares". Ao nível da eficiência do governo, o relatório afirma que Itália está pior do que todos os outros países, com excepção da Venezuela - muito pior do que o Burundi ou mesmo a Síria - num ranking liderado por Singapura e, mais surpreendentemente, o Ruanda.

 

Os Estados Unidos obtêm um número impressionante de vermelhos e amarelos, ocupando o 42º lugar num conjunto de 157 países. Na verdade, os EUA não estão a verde em nenhum dos 17 ODSs, partilhando esta duvidosa honra com a Grécia, Itália, Letónia, México, Espanha e Turquia, entre os países da OCDE. (O Iémen devastado pela guerra, em contraste, está a verde na "Acção Climática" e "Parceria para os Objectivos").

 

Atacar a América é popular e fácil. Mas os contribuintes dos EUA dão cerca de um quarto do dinheiro gasto pelos países ricos em ajuda directa ao desenvolvimento. Um relatório que dá ao maior doador do mundo a classificação mais baixa possível para "Parcerias para os Objectivos" parece ter alguns problemas subjacentes. (Myanmar, Uzbequistão e Arábia Saudita apresentam classificações verdes nesta categoria).

 

Por detrás das curiosidades do relatório está um problema maior: a agenda de desenvolvimento de hoje está a tentar ser tudo para todas as pessoas. Os ODMs funcionaram porque eram poucos e estavam focados. Os ODSs compreendem 169 alvos, o que significa que não há nenhum foco.

 

Os EUA estão a amarelo para o ODS 3, que abrange a saúde e o bem-estar. Porquê? A esperança média de vida nos EUA é relativamente alta, e as taxas de mortalidade neonatal e materna são relativamente baixas. Acontece que a pontuação geral dos EUA é arrastada pelo elevado número de mortes em acidentes rodoviários no país. Mas combinar acidentes de carro no Ohio com taxas de mortalidade neonatal e prevalência de HIV simplesmente confunde a agenda de desenvolvimento global.

 

E a Austrália fica a vermelho no ODS de "Acabar com a Fome", não por causa da fome significativa ou deficiência de micronutrientes, mas porque as suas taxas de obesidade são muito altas e a sua extensa agricultura tem rendimentos mais baixos.

 

A obesidade e a eficiência agrícola nos países ricos são certamente importantes. Mas na tentativa de garantir que tanto os países em desenvolvimento como os países desenvolvidos tenham problemas para resolver, estamos a perder de vista o que realmente importa: cerca de 795 milhões de pessoas no mundo não têm comida suficiente para levar uma vida saudável e activa. Isso é uma em cada nove pessoas na Terra. A grande maioria vive em países em desenvolvimento, onde 12,9% da população está subnutrida.

 

A resolução das deficiências de micronutrientes foi um dos 19 alvos específicos identificados por um painel de economistas vencedores do Prémio Nobel que estudou os alvos dos ODS para o Copenhagen Consensus, o think tank que eu dirijo, e identificou as formas mais económicas para ajudar as pessoas, proteger o planeta e aumentar a prosperidade. Alvos como o acesso universal à contracepção e ao planeamento familiar, o fim da tuberculose até 2030, o comércio mundial mais livre, o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis e a protecção dos recifes de corais ajudariam o meio ambiente e melhorariam milhares de milhões de vidas.

 

A análise mostrou que o foco nos 19 principais alvos do painel alcançaria cerca de quatro vezes mais em termos de ganhos de bem-estar do que tentar distribuir fundos entre os 169 alvos. Em vez disso, os governos estão a trabalhar com um grande número de ODSs. Como o índice ODS admite, "os países parecem esforçar-se para implementar toda a gama" de indicadores.

 

Os próprios países estão agora a fazer a priorização que a ONU não conseguiu fazer. Eles não conseguem alcançar todos os 169 alvos ao mesmo tempo, e por isso concentram-se apenas em alguns deles. O perigo real é que a sua selecção não seja aqueles que poderiam gerar mais resultados por cada dólar, libra, rupia ou peso gasto, mas aqueles que têm mais atenção dos meios de comunicação, das ONGs ou interesse empresarial.

 

Precisamos de focar a agenda de desenvolvimento nas questões principais e nas áreas em que cada dólar gasto possa alcançar o máximo para a humanidade. Só quando o fizermos é que uma tabela de desempenho nos poderá ajudar a maximizar o progresso do desenvolvimento.

 

Bjørn Lomborg é director do Copenhagen Consensus Center e professor visitante na Copenhagen Business School.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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