Miguel Varela
Miguel Varela 26 de julho de 2017 às 21:10

Os eucaliptos, a dívida e visão estratégica 

O assunto político "quente" do verão tem sido os incêndios em Portugal. Esta desgraça tem "apagado" da agenda política uma outra calamidade: o drama da dívida pública portuguesa.

Uma e outra realidade, distintas na sua génese, têm em comum a maior das barbaridades praticadas pelos nossos governantes dos últimos 40 anos: a total ausência de políticas estruturais e falta de visão estratégica de longo prazo.

 

Se no que se refere a uma das nossas maiores riquezas, a floresta, a sua reforma continua a ser uma miragem, agora o eucalipto tornou-se o "bode expiatório" da incompetência e da falta de vontade e visão política. Além de o eucalipto ter um papel importante na economia nacional, com as temperaturas verificadas, também os pinheiros ou outras árvores arderiam nos incêndios. Como a maior mancha florestal nacional é eucaliptal, toca a culpar as "maiorias".  

 

Agora que os índices de confiança aumentaram, disparou o consumo e o investimento, baixou a poupança e aumentou a dívida pública e privada. Mais uma vez continua-se a governar para a conjuntura sem preocupações estruturais. Para quando um programa de governo com uma visão de longo prazo e propostas concretas de criação de valor? Até lá vamo-nos enganando com os indicadores. Portugal está doente, mas vai enganando a febre com aspirinas.

 

Os dados do IGCP sobre a evolução da dívida pública mostram os seguintes indicadores em mil milhões de euros (ver tabela).

 

Em maio de 2017, de acordo com o boletim de julho, o valor da dívida já é de 228.060 mil milhões de euros. Este valor vai crescendo exponencialmente e no período de 10 anos, entre 2010 e 2020 poderá quase praticamente duplicar!

 

Apesar de nos últimos 12 meses, desde junho de 2016, a receita fiscal ter vindo a aumentar em cerca de 0,7% (276 milhões de euros) face ao período homólogo, a verdade é que a despesa aumentou 2,9% (1.426 milhões de euros). A despesa foi de 50.206 milhões, das quais despesa corrente primária: 42.911 milhões (+1,513€; +3,7%), despesa de capital: 1.681€ (+396M€; +30,8%) e despesas com juros: 7.295 milhões (-87M€; - 1,2%). O total da receita foi de 43.753 milhões que está longe dos 50.206 milhões de despesa. Certo é que os juros baixaram, mas as despesas ultrapassam anualmente os 7.295 milhões de euros, ou seja, 20,26 milhões de euros/dia só em juros…

 

Num período histórico de taxas de juro negativas com base nas Euribor, os bancos remuneram os depósitos a prazo a taxas anuais médias de 0,5%. Curiosamente o Estado, através dos certificados do Tesouro, apresenta taxas médias anuais de 2,25%, potencialmente acrescidas de bónus de acordo com o crescimento real do PIB. Talvez por isso, apesar da concorrência desleal à banca, só em maio foram subscritos 314 M€ de certificados do Tesouro. Cerca de 12% da dívida é detida por particulares via certificados de aforro e certificados do Tesouro.

 

Só com visão estratégica para Portugal e consequentes políticas de longo prazo se resolvem problemas estruturais. Sejam incêndios (reforma florestal), sejam dívidas (reforma do Estado). Talvez seja primeiro necessário reformar a classe política nacional.

 

Director do ISG - Business& Economics School

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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