Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 15 de março de 2017 às 21:05

Os factos alternativos

Não foi a equipa de assessores de Donald Trump que inventou a teoria dos factos alternativos. Ela existe há muito. Quem é, como eu, democrata por convicção sabe que as ditaduras têm a horrível realidade da verdade única, da verdade que agrada a quem detém o poder.

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Mas sabe também que as democracias, muitas vezes, mesmo no plano dos factos, conseguem construir mais do que uma verdade. As ditaduras só aceitam uma verdade, mesmo no plano da ideologia e dos programas políticos. Levam a exigência da verdade oficial, principalmente, a esse plano. Só há uma verdade informativa, só há uma verdade histórica, só há uma verdade religiosa, só há uma verdade no mundo, a que eles aceitam. Na democracia, naturalmente, nesse plano dos programas e das ideologias, há tantas verdades quanto as crenças e as convicções de cada um. Mas o problema é que a liberdade de expressão, quando as pessoas não têm escrúpulos nem boa formação moral, leva-as a construir a sua própria verdade e tornam-se também peritas em tentar recriar a história. Por exemplo: quem, porventura, diga que Portugal, em 2004, estava à deriva, está a querer recriar a verdade histórica, para melhor dizer, a falseá-la.

A verdade é que Portugal nesse ano cresceu mais do que nos anos anteriores, teve um défice de 3,1 por cento (depois de todas as correções de anos posteriores), tinha uma maioria parlamentar estável sem a mínima quebra de disciplina de voto, tinha um primeiro-ministro confirmado no congresso do seu partido com cerca de 90 por cento dos votos, quase não tinha greves nem manifestações. Mais: quem chefiava o Governo, dois dias antes da dissolução, era recebido em apoteose em Trás-os-Montes. Demitiu-se um ministro, demitiu-se um comentador de televisão e o país tornou-se instável e à deriva, mas então o que dizer do que se passou depois? Quantos ministros se demitiram ou foram demitidos, quantas crises políticas já existiram, quantos escândalos "lesa-majestade", esses sim, já aconteceram, quantas trafulhices já se descobriram? A questão está em que muitos se convencem de que o passar do tempo permite convencer as pessoas de que a verdade que lhes interessa deve ser uma e distinta da verdade verdadeira. O problema cada vez mais é este, para o mundo e para os cidadãos: há as verdades verdadeiras e as outras. Também já havia as verdades de conveniência. Cada vez mais há as verdades interesseiras e, de quando em vez, vão surgindo as verdades pessoais.

 

O que importa é haver sentido de Estado e respeito pela pátria, que em cada momento se aceita servir. Quando se ama a pátria não se aceita mentir aos compatriotas, por muito dura que a verdade histórica seja, porventura, para cada interveniente. A dignidade está em assumir-se aquilo que se faz, bem como as respetivas consequências. Gosto sempre, nestas matérias, de citar o meu pai que partiu faz hoje (quarta) cinco anos: é tudo uma questão de categoria.

 

Advogado

 

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