João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 28 de novembro de 2017 às 19:02

Os limites da diplomacia do Papa Francisco 

Francisco é a última vítima das violências em Myanmar ao escusar-se a apelos públicos contra a perseguição da minoria muçulmana rohingya na primeira visita papal à antiga Birmânia. 

O louvor da paz, da democracia e unidade nacional no respeito pela riqueza singular das diferentes tradições religiosas foi o recurso de Francisco para acomodar susceptibilidades políticas.

 

O Papa seguiu o conselho expresso à Rádio Vaticano pelo arcebispo de Yangoon, Charles Maung Bo, que advertiu para o risco de uma eventual declaração sobre o conflito rohingya poder agravar as ameaças a uma "democracia ainda muito frágil".

 

O primeiro cardeal de Myanmar, criado precisamente por Francisco há dois anos, considerou, ainda, "algo exagerada" a reacção da "comunidade internacional" ao que classificou como a "resposta muito violenta" dos militares aos ataques de "militantes rohingya".

 

A Santa Sé estabeleceu relações diplomáticas com Naypyitaw em Maio, na sequência da recepção no Vaticano de Aung San Suu Kyi, líder do Governo desde o ano passado, mas, esta monção, o recrudescer da violência contra os rohingya - tidos como usurpadores muçulmanos bengalis - apanhou em falso o Papa. 

 

Na alocução dominical de 27 de Agosto, na Praça de S. Pedro, o Papa solidarizara-se com "os irmãos e irmãs rohingya " e denunciara a perseguição que desencadeou a fuga destes muçulmanos para o vizinho Bangladesh.

 

Chegado a Yangoon, Francisco viu-se compelido ao silêncio sobre o conflito em Rakhine onde se concentra a maioria dos muçulmanos de Myanmar, cerca de 3 a 4% dos mais de 50 milhões de habitantes.

 

A exaltação marcial de virtudes budistas por movimentos nacionalistas bamar (birmaneses), com conivência dos militares, tornou-se uma ameaça para as minorias, incluindo os cerca de 700 mil católicos de Myanmar e mais de três milhões de protestantes.

 

A esmagadora maioria dos crentes católicos e protestantes pertence às minorias Chin, Kachin, Karen, Kwa e Naga, em conflito com o poder central dominado pelos bamar budistas desde a independência em 1948.

 

A passagem de Francisco por Myanmar acabou por evidenciar a fragilidade política da Igreja católica local e a incapacidade para tentar mediar um conflito que opõe, sobretudo, grupos de confissão muçulmana e budista.

 

No Bangladesh, onde se encontram refugiados mais de 600 mil rohingya, pouco pesa a palavra do Papa, congregando a Igreja menos de 400 mil católicos entre 160 milhões de habitantes, esmagadoramente sunitas.

 

Em terra muçulmana - a braços com o radicalismo jihadista sunita em conflito sobretudo com a minoria hindu, xiitas e ahmmadiya - dificilmente o Papa poderá escapar à questão rohingya e a pronunciar-se sobre o acordo esboçado este mês entre Bangladesh e Myanmar para repatriação de refugiados que é omisso quanto a condições de restabelecimento dos rohingya, garantias de segurança e estatuto legal.

 

A diplomacia vaticana aspira a maior influência na Ásia para consolidar a expansão demográfica do catolicismo - predominante em dois estados: o tradicional bastião católico das Filipinas e o recém-convertido e independente Timor-Leste - em contraponto à sangria nas comunidades do Médio Oriente.

 

Contudo, o drama rohingya levou Francisco a assumir atitudes equívocas, desagradando a muçulmanos e budistas, em prejuízo da credibilidade global da diplomacia da Santa Sé e da posição das minorias católicas.

 

Visto de Pequim, o passo em falso do Papa Francisco pode reforçar intransigências nas arrastadas negociações para restabelecimento de relações diplomáticas rompidas em 1951.

 

Uma das vias para romper com Taiwan e reconhecer Pequim obriga, por exemplo, a Santa Sé a aceitar os bispos proclamados pelo regime comunista para a sua igreja oficial, a Associação Católica Patriótica Chinesa, se a República Popular admitir, por sua vez, a legitimidade dos bispos nomeados no Vaticano.

 

Um compromisso sobre a direcção espiritual dos estimados 10 milhões de crentes católicos na China, educação e proselitismo religiosos é, no entanto, questão fulcral no Vaticano e tema secundário em Pequim.

 

Avançar com alguma iniciativa diplomática significativa a curto prazo em que a Santa Sé consiga fazer valer toda a sua influência e experiência seria a melhor forma de o Papa Francisco ultrapassar um fiasco que deixou a claro a limitada capacidade de manobra em terras onde predominam tradições alheias ao catolicismo.

 

Jornalista

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