Fernando  Sobral
Fernando Sobral 14 de março de 2017 às 20:40

Os Medici e o Montepio  

Florença foi o oásis da Renascença. No seu centro estava uma actividade que viria a ser determinante no Ocidente, a indústria bancária. E liderando esta esteve uma família, os Medici.

Estes, mestres na arte da gestão do dinheiro, financiaram quatro Papas e duas rainhas de França. Mas a partir de certa altura usaram o dinheiro para determinar a política enquanto financiavam a Renascença cultural de Florença. Tudo ficou ligado: a decadência da cultura em Florença a partir de 1530 teve que ver com a transformação dos Medici de comerciantes e banqueiros em aristocratas e depois em líderes políticos. O seu desprezo pelo dinheiro haveria de lhes custar caro. A decadência de algum sector financeiro português tem também que ver com a cega paixão pelo poder. Onde a criação de dinheiro, sendo importante, passou a ser menosprezada. Foi assim que chegámos ao BPN, ao Banif, ao BES. E ao Montepio. Se a história total do BES ainda está para ser contada (o objectivo final, em Bruxelas e em Lisboa, era liquidar o banco, por motivos políticos diferentes), a do Montepio lembra as sombras que Maquiavel descreveu.

 

As carinhosas declarações de Carlos Costa  sobre a "administração profissionalizada" do Montepio causam desde logo um arrepio de medo. Pior: o governador do BdP, no seu estilo gongórico e desértico, deixa transparecer que o problema do Montepio teria que ver com o accionista, a Associação Mutalista, e não com a gestão do banco. Parece que o problema é o inverso: a AMMG foi injectando dinheiro no banco. E isso pode, se tudo não for posto na ordem, causar problemas a 630 mil associados. Não é um número irrelevante, apesar do silêncio clamoroso do BdP e do Ministério da Segurança Social. No meio disto fica-se com uma sensação estilo "The Walking Dead": uma entidade vasta como o Montepio é regulada por diferentes entidades que, pelos vistos, se especializaram numa conversa de surdos entre elas. Para que tudo não termine como a carreira dos Medici precisam-se de respostas. O Montepio é demasiado importante para ser tratado assim.

 

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