Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 06 de fevereiro de 2018 às 19:31

Os novos Bonnie & Clyde

Lamento que ainda ninguém tenha chamado a atenção dos portugueses (e das portuguesas, claro) para o bom exemplo dados pelos protagonistas destas operações Marquês, Lex, "you name it", no que concerne às relações com as ex-mulheres.

Este é, de facto, um país de gente deprimida. Sempre a apontar o dedo ao lado mau das coisas. Sempre tão feliz quando encontram um alegado bandido, um alegado crime, uma alegada corrupção que, aliás, raramente perdem o estatuto de "alegado" porque o escândalo gasta-se nas páginas dos jornais, e depois não há tempo, nem paciência para um julgamento à moda antiga, daqueles que obedecem à lei e têm direito a contraditório. Além do mais, para quê gastar recursos quando já estão tão eficazmente condenados, como percebe quem se dá ao trabalho de seguir aqueles diagramas que enchem sempre páginas duplas, e em que, preto no branco, se torna evidente como estão todos feitos uns com os outros.

 

Gente tão deprimida que nem sequer dá pelas boas notícias escondidas nos relatos dos "exclusivos" da Operação Marquês, Lex, "you name it", que uma fonte geralmente bem informada (ao detalhe da hora e do minuto) entregou a este ou àquele órgão de comunicação, certamente prémio de mérito pelo desempenho do ano letivo anterior. Só assim se explica porque não vi ainda ninguém chamar a atenção dos portugueses (e das portuguesas, claro) para o bom exemplo dado pelos protagonistas destas novelas, no que concerne às relações com as ex-mulheres. Desapareceram os tradicionais Bonnie & Clyde, dupla de toda a vida que embarcava em conjunto em assaltos a bancos e a bombas de gasolina, para dar lugar a Clyde e ex-Bonnie 1, ex-Bonnie 2, ex-Bonnie 3 e por aí adiante. Mais admirável ainda, estes ex-maridos exemplares alegadamente conseguem o impossível, levando a que todas as Bonnies funcionem em rede, como agora se diz.

 

Com uma média de 22.649 divórcios por ano em Portugal, mais de 60 por dia, muitos deles resultado de longos processos de partilhas aguerridas de bens móveis e imóveis, filhos incluídos, é urgente saudar esta nova tendência civilizacional. Embora habitem em condomínios separados, e cada um ande lá na sua vidinha, mantêm contas bancárias conjuntas, presenteiam-se mutuamente com molhinhos de notas, casas, carros e viagens, e para benefício dos viciados em escutas - um novo distúrbio a acrescentar ao famoso Manual Estatístico de Doenças Mentais (DSM) -, passam os dias ao telefone um com o outro.

 

Num tempo em que se fala, e bem, sobre ex-maridos que perseguem, violentam e matam as antigas companheiras, é inadmissível o silêncio em redor do comportamento louvável destes homens dispostos a reagir aos pedidos da antigas mulheres da sua vida, com uma ajudinha para mais um casaco, uma renda em atraso, propinas universitárias para que avancem nos estudos, ou mesmo um monte alentejano para quem precisa de mudar de ares. Elas, por seu turno, surgem-nos como verdadeiras mulheres emancipadas do século XXI recusando-se a ser sujeitos passivos de uma tradicional pensão de alimentos, oferecendo-se em contrapartida para uma assinatura aqui, uma assinatura ali. 

 

Ora, tendo em conta que alguns dos protagonistas destas novas histórias até estão ligados ao mundo jurídico, parecia-me de vital importância que se solicitasse o seu contributo para a redação de toda uma nova doutrina na área do direito da família. Quem sabe se não seria possível substituir uma eventual pena de trabalho comunitário pela elaboração de pareceres especializados que salvaguardassem a moral destas histórias, ou seja, só há vantagens em manter uma relação de colaboração profunda, mesmo quando o amor acaba.  

Jornalista
 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
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