Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 09 de abril de 2017 às 19:49

Os novos "donos disto tudo" estão a prazo

O Novo Banco é o maior símbolo da mudança na estrutura de poderes da economia portuguesa - o banco nasceu, afinal, das cinzas daquele que era o maior centro de poder económico privado em Portugal, o império Espírito Santo.
O Novo Banco é o maior símbolo da mudança na estrutura de poderes da economia portuguesa - o banco nasceu, afinal, das cinzas daquele que era o maior centro de poder económico privado em Portugal, o império Espírito Santo. A sua provável venda a um fundo abutre norte-americano é, também, um símbolo de uma nova mudança no futuro: a maioria dos novos "donos dito tudo" - na banca, nos seguros ou nas telecomunicações - pode estar a prazo em Portugal.

No caso do Lone Star - vamos assumir que o negócio vai ser feito - a venda futura do Novo Banco é mesmo uma certeza. É assim que um fundo desta natureza funciona. O acordo de venda prevê um mínimo de três anos à frente do banco e no Lone Star fala-se para fora, em termos muito genéricos, em cerca de seis anos - o tempo que estimam precisar para maximizarem o retorno do investimento.

No restante sector financeiro não há vendas tão certas como esta, mas não corremos um risco demasiado alto se dissermos que são prováveis. A Apollo - que dos despojos da era Espírito Santo ficou com a seguradora Tranquilidade e ao Banif foi buscar a Açoreana -, não é muito diferente do rival Lone Star. No BCP, o novo accionista de referência é um conglomerado chinês que tem crescido meteoricamente, mas que não tem conseguido tirar lucros operacionais dos negócios que acumula - a Fosun, com a sua enorme dívida e dependência da opaca política de Pequim, é candidata a encontrar turbulência mais à frente. Nesse contexto, a sua permanência no BCP e na Fidelidade - seguradora que comprou à Caixa e que logo a seguir pôs a financiar o conglomerado - não estará garantida.

Nas telecomunicações, a dona da PT levanta sobrancelhas no mercado à conta do seu endividamento: para financiar a ambiciosa e rápida expansão global, a Altice fez disparar a sua dívida de 1,7 mil milhões de euros em 2012 para cerca de 48 mil milhões no final do ano passado. Em 2015, o agora candidato presidencial Emmanuel Macron, então ministro francês da Economia, afirmou que o fundador da empresa estava a dar um passo maior do que a perna. Um aperto futuro nas condições de financiamento da dívida fará a Altice passar um mau bocado e será, como no caso da Fosun, um teste ao grau de compromisso que tem com os seus investimentos.

Estes compradores estrangeiros foram quem apareceu num cenário crise, quando o Estado sob resgate se viu forçado a vender os anéis que ainda tinha e o Grupo Espírito Santo sucumbiu. Foi assim que EDP, REN, ANA, PT, Novo Banco ou BCP, para dar exemplos mais sonantes, passaram para controlo estrangeiro (uma lista a que se juntam muitas outras empresas). A entrada destes investidores foi importante para encaixar receita pública e para assegurar a vida dos negócios em que entraram (e da maioria dos empregos).

Mas em vários casos - porque são conglomerados ou grupos sobreendividados, porque a sua viabilidade depende da política opaca do seu país de origem, porque são investidores estritamente financeiros - estes compradores não ideais parecem configurar uma fase transitória. Por outras palavras: as mudanças nestes sectores estratégicos para a economia portuguesa estão longe de ter chegado ao fim. Resta saber quem, em Portugal ou lá fora, estará em posição de agarrar o ceptro quando os "novos donos disto tudo" quiserem entregá-lo.

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comentários mais recentes
surpreso 10.04.2017

Dos "donos disto tudo" locais,passamos aos "abutres donos disto tudo".Volta,Sócrates,que tu,ao menos, és pato-bravo caseiro!

Carlos Pereira 10.04.2017

Considerando a incapacidade que os regularadores têm revelado estamos ainda para ver se no fim do dia o ceptro não é devolvido ao Estado trazendo agarrada uma pesada factura a pagar. A visão de curtíssimo prazo destes investidores torna este um cenário realista......

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