Simon Johnson
Simon Johnson 12 de novembro de 2017 às 14:00

Os peronistas americanos

O populismo americano na era de Trump, apesar de prometer ganhos para a classe trabalhadora, vai de facto beneficiar apenas os que já são ricos.

Nomeiem o país. O seu líder luta contra os estrangeiros, cria várias barreiras às importações e defende baixas taxas de juro e crédito barato em grande quantidade para sectores favorecidos. A dívida do governo está já elevada mas o pretenso homem forte no poder decide acumular ainda mais, aumentando o défice orçamental, argumentando que isto vai impulsionar a prosperidade para níveis inatingíveis anteriormente. Apesar do governo dizer que representa as pessoas comuns, os contratos do Estado são dados a amigos dos amigos.

 

A resposta, claro, é a Argentina sob a presidência de Juan Perón, que esteve no poder de 1946 a 1955 (e depois novamente por um curto período – entre 1973 e 1974), e os seus sucessores. Um dos países mais ricos do mundo em 1900 foi arrasado por décadas de políticas económicas insustentáveis que fizeram com que as pessoas se sentissem bem no curto prazo mas eventualmente acabassem num desastre, devido nomeadamente à hiperinflação, crise financeira e incumprimentos de dívida periódicos (para ser claro, as políticas económicas actuais da Argentina são bastante diferentes; para uma análise profunda e actualizada recomendo um trabalho do meu colega Alberto Cavallo).

 

Mas se a sua resposta foi Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, não estaria muito longe. Há um motivo para temer que os Estados Unidos estejam agora no caminho daquilo que outrora ficou conhecido como o populismo da América Latina.

 

Consideremos o volte-face notável no Partido Republicano em termos de responsabilidade orçamental. Costumava haver um national debt clock (medidor dos níveis de dívida) na sala de audiências do Comité de Serviços Financeiro da Câmara e os Republicanos reclamariam sobre o desregramento governamental. Quando estive recentemente naquela sala, o relógio estava "em reparação".

 

Os auto-proclamados "conservadores orçamentais", como Mick Mulvaney (um antigo membro da Câmara dos Representantes e que actualmente está encarregado das finanças do Governo enquanto líder do Office of Management and Budget), estão próximos de promulgar um grande corte de impostos, apesar de saberem que isso vai elevar o défice e a dívida pública. Mulvaney e os seus colegas não podiam importar-se menos com isso.

 

Apesar de controlarem tanto o Congresso como a presidência, os Republicanos estão a ser assolados por divisões internas. Em resultado disso, estão a ter dificuldades em "custear" os cortes nos impostos com reduções na despesa fiscal (incentivos atribuídos a várias actividades como empréstimos das empresas, financiamento hipotecário ou poupanças para reforma). Mas os Republicanos estão profundamente comprometidos com um corte gigante de impostos, em grande parte devido ao facto de os seus doadores estarem a exigirem que estes cortes sejam adoptados. Em resultado disso, os Estados Unidos vão simplesmente ter um défice orçamental maior.

 

Os factos costumavam importar em Washington, pelo menos, um pouco. Mas esse já não é o caso na era de Trump; pelo menos não no que diz respeito a impostos. Em vez disso, a estratégia tem sido declarar, descaradamente, tudo o que passa pela cabeça e abusar da má-educação com qualquer pessoa que diga o contrário.

 

No capítulo 3 do White House Burning, James Kwak e eu revimos o que aconteceu depois dos cortes de impostos, em 2001, levados a cabo por George W. Bush. Grandes promessas foram feitas em relação aos cortes, incluindo que estes iram ajudar a maioria dos americanos. Apesar de ter ajudado as pessoas mais ricas a ficarem mais ricas, não há provas que tenham permitido um crescimento mais rápido da classe média e maiores rendimentos para esta classe. Em vez disso, impulsionou o défice orçamental e contribuiu significativamente para aumentar a dívida nacional dos Estados Unidos (em cerca de três biliões de dólares até 2010), o que enfraqueceu a capacidade do governo para responder a crises, tanto em termos de segurança nacional como de instabilidade financeira.

 

Testemunhei repetidamente perante o Congresso sobre política orçamental. Durante a crise financeira de 2008-2009, os Republicanos estavam certamente interessados nos factos. Mas isto rapidamente mudou, mais notoriamente na Câmara dos Representantes. De facto, Kevin Brady, o representante que me disse claramente que não estava interessado em olhar para os factos que fossem sequer moderadamente inconvenientes, é agora o líder do Ways and Means Committee da Câmara, que desempenha um papel importante no que diz respeito a impostos.

 

Ron Wyden, membro sénior do Partido Democrata no Comité de Finanças do Senado, chama a proposta de redução dos impostos dos Republicanos de "trapaça para a classe média". Está a ser educado.

 

O corte nos impostos sobre as empresas, que provavelmente os Republicanos vão apoiar, não vão impulsionar de uma forma significativa os salários. Como o Serviço de Pesquisa do Congresso, descrevendo o plano mais amplo apresentado por Paul Ryan, presidente da Câmara, referiu "o plano estima que os efeitos na produção aparentem estar limitados em tamanho e possivelmente em efeitos negativos".

 

Incluindo todos os efeitos positivos possíveis das propostas Republicanas, o Centro de Política Fiscal concluiu que, para o governo federal, "a receita cairia entre 2,4 biliões de dólares e 2,5 biliões de dólares durante os primeiros dez anos e em cerca de 3,4 biliões de dólares durante a segunda década".

 

A administração Trump respondeu a esta análise sensível e baseada nos factos da maneira que era esperado: sendo rude.

 

O populismo americano na era de Trump, apesar de prometer ganhos para a classe trabalhadora, vai de facto beneficiar apenas os que já são ricos. Para ser justo, isto está longe de tudo o que Perón pensou alguma vez conseguir. Contudo, o resultado do populismo irresponsável é sempre o mesmo.

 

Simon Johnson é professor da Sloan School of Management do MIT e o co-autor de White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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