Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 17 de maio de 2017 às 21:03

Os pobres e os ricos

Numa audição parlamentar realizada esta quarta-feira, um deputado do CDS-PP voltou ao tema da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), os pobres e os ricos.

Confesso que há temas que, pelo tempo em que são suscitados e pelos protagonistas envolvidos, me provocam um sorriso, obviamente sem qualquer falta de consideração. É preciso também conhecer razoavelmente a história de alguns partidos e de alguns repastos em tempos de oposição interna, e lembrarmos ainda passadas estruturas dirigentes nesta Casa, para rapidamente termos o quadro completo. Sobre esse tema há muitas reflexões úteis a fazer, mas também factos a reter. Por exemplo, é importante saber quando foi que a Santa Casa decidiu entregar a gestão de parte importante do seu património a uma sociedade gestora de fundos, pagando, naturalmente, um "fee" anual razoável a essa entidade privada que geria fundos de outras sociedades ou instituições. A minha opção nesta matéria, quando foi possível, foi a de decidir pela liquidação desse fundo e de fazer retornar todo o património da Santa Casa à sua própria gestão. A propósito de pobres e de ricos, era bom saber a época em que a Santa Casa decidiu fazer parcerias com sociedades privadas para a reabilitação dos seus prédios, do seu património, passando depois uma parte dos fogos recuperados para a propriedade dessas entidades, nalguns casos, até, com posições importantes no sistema financeiro português. São só dois exemplos, de vários temas na área do património e noutras, que nos poderiam requerer atenção no que concerne a este assunto da Santa Casa, os pobres e os ricos. Devo esclarecer que nas Mesas de que fui ou sou o primeiro responsável não aconteceram mais parcerias desse tipo.  Ou seja: tomamos as opções contrárias às do trabalho com quem, pelos vistos, consideram ricos por entendermos que a Santa Casa poderia fazer isso por si. Isto não significa que eu censure, à partida, essas opções, até porque conheço bem a integridade e a correção dos responsáveis dessas entidades privadas. Algumas dessas opções foram tomadas quando foi provedora Maria José Nogueira Pinto, o que só aumenta o meu respeito por quem foi uma relevante e inesquecível primeira dirigente da Santa Casa. Eu, provavelmente, não as faria, mas não tenho propriamente uma oposição de princípio. Agora, as pessoas que as fizeram virem falar ou inspirarem outros a falar nesse tema da Santa Casa, os pobres e os ricos, é que constitui alguma ousadia.

 

O entendimento da Santa Casa é muito simples: a SCML existe, principalmente, essencialmente, para cuidar de quem mais precisa, dos que sofrem, dos carentes, dos que não têm esperança, dos pobres, dos doentes, dos presos, dos aflitos. Mas para cuidar de todos esses, dos que estão necessitados, há que ir buscar recursos e de forma cada vez mais diversificada, incluindo aos ricos. Naturalmente, quando se fala em ir buscar, não é por esbulho nem por métodos indevidos que não respeitem a lei. Não somos revolucionários, mas não somos distraídos. Aqui há semanas, já falei também naqueles que promoveram, decidiram ou autorizarem participações financeiras da Santa Casa, algumas constituindo participações acionistas relevantes, e algumas em instituições fora da área da economia social. A política é muito interessante quando é feita com convicção e quando as pessoas vão combatendo sempre por aquilo que pensam e sentem de modo convicto. Pode-se às vezes mudar de convicções? Sim, talvez, mas convém que seja a título excecional e com justificação plausível e não ao sabor das conveniências. Disse e repito: a Santa Casa não entra em aventuras e estou certo de que também ninguém lhe pedirá para o fazer. Mas também não nos impressionamos com os ditos de pregadores de moral de convicções variáveis, o que não é certamente o caso de quem tem colocado essas questões, porque as intenções serão seguramente as melhores.

 

Advogado

 

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mais votado IS Há 1 semana

Bom texto de Pedro Santana Lopes!

comentários mais recentes
IS Há 1 semana

Bom texto de Pedro Santana Lopes!

Anónimo Há 1 semana


Os cortes salariais de 3,5 a 10%, foram impostos pelo PS de Socrates e Costa.

Ao contrário do que os hipócritas de esquerda tentam fazer crer.