Robert Skidelsky
Robert Skidelsky 21 de agosto de 2017 às 14:00

Os protocolos de Donald J. Trump

No passado, uma pessoa tinha de enganar os meios de comunicação com mais ou menos respeitabilidade para conseguir plantar informações falsas. Agora a desinformação pode ficar viral através das redes sociais, como uma versão moderna da peste negra.

É uma peculiaridade estranha na história da lógica que os irrepreensíveis habitantes de Creta tenham sido quem deu o seu nome ao famoso "paradoxo do mentiroso". Presumivelmente, o cretense Epimenides disse: "todos os cretenses são mentirosos". Se Epimenides estava a mentir, estava a dizer a verdade – e, por conseguinte, estava a mentir.

 

Algo semelhante pode ser dito sobre o presidente dos EUA, Donald Trump: mesmo quando está a dizer a verdade, muitos assumem que está a mentir – e assim, a ser verdadeiro para consigo mesmo. Durante anos, ele alegou, sem outras provas que não fontes que defendeu serem "extremamente credíveis", que a certidão de nascimento de Barack Obama era fraudulenta. Durante as primárias republicanas, ligou o pai do seu oponente, Ted Cruz, ao assassinato de John F. Kennedy. Promoveu ideias que são de charlatões e que dizem que as vacinas causam autismo e destacou magistralmente suggestio falsi [insinuações falsas] – por exemplo, insinuou que as mudanças climáticas são uma farsa chinesa delineada para prejudicar a economia americana.

 

Sempre houve um mercado próspero para informações falsas, falsificações, farsas e teorias da conspiração. "A história é a destilação de rumores", escreveu Thomas Carlyle no século XIX. Os vendedores de informações falsas, a troco de dinheiro ou para obterem vantagens políticas, encontram sempre compradores ávidos entre os crédulos, lascivos ou vingativos. E a coscuvilhice é sempre divertida.

 

A história moderna dá-nos alguns exemplos famosos. A carta de Zinoviev, uma falsificação que implicava o Partido Trabalhista britânico na conspiração comunista liderada pelo Kremlin, foi publicada pelo Daily Mail quatro dias antes das eleições gerais de 1924 no Reino Unido, frustrando as hipóteses do Partido Trabalhista.

 

Talvez a falsidade mais famosa seja Os Protocolos dos Sábios de Sião. Possivelmente produzidos por dinheiro, Os Protocolos alegavam que existiam provas de um plano judeu para o domínio do mundo. Numa passagem importante lê-se: "(…) devemos desgastar tanto os Goyim que vão sentir-se obrigados a dar-nos um poder internacional que, pela sua posição, vai permitir-nos sem qualquer violência,  absorver gradualmente todas as forças do Estado do mundo e formar um super-Governo". Circulando entre a polícia secreta do czar, no início da década de 1900, para justificar os pogrom anti-judeus do regime, isto tornou-se a base da literatura anti-semita da primeira metade do século XX, com consequências horríveis.

 

O que é novo? A atenção que hoje é dada a informações falsas deriva de uma velocidade extremamente grande na qual a informação produzida digitalmente viaja pelo mundo. No passado, uma pessoa tinha de enganar os meios de comunicação com mais ou menos respeitabilidade para conseguir plantar informações falsas. Agora a desinformação pode ficar viral através das redes sociais, como uma versão moderna da peste negra.

 

A questão importante é como é que isto vai afectar a democracia. Vai a facilidade de aceder a informação libertar as pessoas de um controlo mais duro ou vai fortalecê-lo até um nível em que a democracia simplesmente vai afundar-se num mar de manipulação.

 

Tanto os pessimistas como os optimistas têm bons argumentos. "Conhecimento é poder", dizem os optimistas. Parecem seguir a linha de pensamento que aponta que, quanto mais informação for disponibilizada, mais conhecimento os eleitores vão ter e, por conseguinte, mais capacidade para fazer com que os líderes assumam as suas responsabilidades.

 

Mas, apontam os pessimistas, informação não é conhecimento. A informação tem de ser estruturada para se tornar em conhecimento. Instituições como escolas, universidades, jornais e partidos políticos têm sido os nossos instrumentos estruturantes. Mas a tecnologia digital está, em termos institucionais, nua. Não dá nenhum mecanismo estruturante e, por conseguinte, nenhum controlo sobre a divulgação de informações livres de conhecimento.

 

As redes sociais têm, sem dúvida, desempenhado um papel no crescimento das políticas populistas que prosperam em tal ambiente. Os populistas de esquerda, como Jeremy Corbyn no Reino Unido, Bernie Sanders nos Estados Unidos e Jean-Luc Mélenchon em França, receberam um impulso significativo fruto da capacidade das redes sociais para contornar os meios de comunicação tradicionais. Os populistas de direita, como Trump, Marine Le Pen na França e Geert Wilders na Holanda, beneficiaram exactamente na mesma medida. Ambos os lados podem acusar os meios de comunicação social há muito estabelecidos de "falsificarem" notícias.

 

Talvez o mercado das notícias vá, eventualmente, encontrar o seu próprio equilíbrio entre a verdade e a falsidade. Uma fracção da população vai sempre estar disponível para comprar notícias falsas; mas a maioria vai aprender a distinguir entre fontes credíveis e as que são pouco confiáveis.

 

Mas se a difusão de desinformação é considerada como um vírus, não há um equilíbrio natural sem catástrofe. Por isso, deve ser verificado através da inoculação.

 

Poucos confiam nos políticos, que frequentemente têm um interesse declarado em informações falsas, para fazerem o seu trabalho. Uma resposta pode ser as agências independentes que funcionem também com as organizações de defesa do consumidor como a Which? Há agora vários sites dedicados a validar os factos e a desmascarar supostas notícias novas. Um dos mais conhecidos, o Snopes.com, foi lançado em 1994 como um projecto para a aferir a exactidão de lendas urbanas. O Facebook está agora a tentar marcar as notícias falsas, assinalando que foram "contestadas por controladores de factos terceiros".

 

Embora estas tentativas sejam dignas, sofrem de uma fraqueza inerente: continuam a colocar a responsabilidade nos leitores para verificarem se a notícia é verdadeira. Mas somos todos responsáveis por procurar informação que confirme as nossas crenças e ignore a informação que as questiona. Os factos não vão ser comprovados por aqueles cujas crenças dependem de não se verificarem.

 

Não há respostas fáceis. Obviamente, a educação em pensamento critico, e em especial em ciências sociais como economia, é necessário. Mas será suficiente para travar o crescimento elevado da capacidade para difundir informações falsas?

 

A democracia depende tanto do direito à liberdade de expressão como do direito ao conhecimento. Podemos não ter uma alternativa que não seja um equilíbrio entre as duas.

 

Robert Skidelsky, membro da Câmara dos Lordes britânica, é professor emérito de Economia Política na Universidade de Warwick.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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