Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 13 de fevereiro de 2017 às 20:10

Os ressentimentos da vida

A União Europeia não é uma utopia para assegurar a paz na Europa, é uma utopia para ocupar o vazio deixado pelo fim da utopia do passado que foi o Estado nacional soberano na Europa.

A FRASE...

 

"A 'Europa' foi uma utopia que, como o nome indica, não tinha lugar no mundo real. (…) Convinha perceber o que sucedeu e não perder tempo com gestos vazios para prolongar uma vida condenada, a benefício dos pobrezinhos que se tomam pelo que não são."

 

Vasco Pulido Valente, Observador, 12 de Fevereiro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Autopia é uma construção imaginária que pretende orientar a sociedade na resolução das imperfeições que existem num certo lugar e num certo presente. Utopias no passado influenciaram o curso dos acontecimentos: este teria sido diferente se tivesse sido outra a utopia proposta. Não se volta ao passado que existiu antes de uma específica utopia ter mobilizado a sociedade para uma outra realidade. Os ressentidos da vida são os que não aceitam as consequências do que eles próprios propuseram.

 

O Estado nacional na Europa foi uma construção utópica que precisou da expansão imperial para que pudesse ser viável. A condição de domínio das outras partes do mundo, pela colonização e pela emigração, era a condição de viabilidade do padrão de organização em Estados nacionais dotados de soberania - em que nenhum poder externo poderia impor-se ao poder interno de cada Estado. Esta utopia deixou de ter validade quando os impérios europeus foram desmantelados, depois das duas guerras civis europeias do século XX. O que desaparecia com a descolonização era o Estado nacional na Europa e a cláusula da soberania nacional. Desapareciam também os modelos de desenvolvimento associados à escala imperial, alterando-se as condições do crescimento económico e a possibilidade dos modelos de sociedade baseados em políticas sociais distributivas.

 

A União Europeia não é uma utopia para assegurar a paz na Europa, é uma utopia para ocupar o vazio deixado pelo fim da utopia do passado que foi o Estado nacional soberano na Europa. A União Europeia é o império necessário para a Europa depois do fim dos impérios nacionais na Europa. O paradoxo é que seja o fantasma de uma utopia do passado - o Estado nacional - que se utiliza para impedir a concretização da utopia necessária no futuro - a União Europeia.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
surpreso 13.02.2017

Já não há autonomias nacionais,vivemos interdependentes

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