Os riscos acentuados de uma desaceleração nos Estados Unidos

A necessidade de estímulos orçamentais futuros deixa claro que os EUA precisam de começar a desenvolver agora uma estratégia para diminuir o crescimento da dívida nacional.

A economia dos Estados Unidos está a avançar a bom ritmo, e o crescimento do PIB deverá continuar acima do nível tendencial em 2018 e 2019. Embora a expansão económica esteja no seu nono ano consecutivo, não há sinais de uma queda iminente.  

 

O maior risco para a expansão económica é a fragilidade do sector financeiro. Uma década de taxas de juro excessivamente baixas levou os preços dos activos para níveis extremos. A rendibilidade real dos títulos do Tesouro a dez anos é aproximadamente zero. O rácio preço-lucros do índice de acções S&P 500 está cerca de 70% acima da média histórica. Se esses e outros preços dos activos regredirem para os seus níveis de referência históricos, os investidores sofrerão perdas superiores a 10 biliões de dólares, o que conduzirá a uma diminuição dos gastos dos consumidores e do investimento das empresas.

 

A actividade económica também pode abrandar como resultado do conflito internacional na Coreia, a agudização das disputas comerciais ou eventos políticos domésticos nos EUA.

 

As desacelerações são uma característica normal da economia dos EUA, que passou por nove recessões nos últimos 50 anos. O que torna a situação actual incomum e mais preocupante do que no passado é o baixo nível das taxas de juro de curto prazo, o que limita a capacidade da Reserva Federal dos Estados Unidos para usar a política monetária para combater a próxima recessão.

 

Normalmente, a Fed responde a uma desaceleração económica reduzindo consideravelmente os juros de curto prazo. Durante a recessão mais recente, a Fed cortou a taxa de referência de mais de 5% em Julho de 2007 para apenas 0,16% em Dezembro de 2008, uma redução total de mais de cinco pontos percentuais. Estando em 1,4% agora, a Fed tem pouca margem para uma redução significativa da taxa. Na reunião de Dezembro, a estimativa média do Comité Federal do Mercado Aberto para 2019 ainda era muito baixa, em torno de 2,9%.

 

Para estimular a procura na última contracção, a Fed também pôs em prática a chamada "política monetária não convencional", prometendo manter os juros baixos por muito tempo e comprar títulos de longo prazo para o seu próprio portefólio. Esta estratégia teve como objectivo manter as taxas de juro de longo prazo baixas o suficiente para aumentar a procura por acções e imobiliário e, assim, aumentar a riqueza e os gastos. Não está claro que esta estratégia ofereça o estímulo esperado enquanto as taxas de juro reais permanecem baixas.

 

A responsabilidade de estimular a economia na próxima recessão será, portanto, da política orçamental - mudanças nos impostos e nos gastos do governo.

 

Um novo corte temporário dos impostos não funcionaria. A experiência mostra que um corte temporário nos impostos sobre o rendimento pessoal proporcionaria um estímulo muito pequeno, porque a maioria dos contribuintes usaria a rendimento extra resultante para pagar dívidas ou aumentar as suas poupanças em vez de gastar mais.

 

Mas a reforma fiscal de 2017 oferece uma oportunidade para um corte de impostos permanente, preservando os cortes que estão agora programados para expirar em 2025. Os republicanos que projectaram e votaram a lei de 2017 prevêem estender esses cortes além de 2025 numa legislação subsequente. Uma desaceleração económica nos próximos anos seria uma boa altura para tornar os cortes permanentes.

 

A outra forma de reverter uma recessão económica seria aumentar os gastos do governo. Existe agora um apoio bipartidário generalizado para o aumento das despesas com infra-estrutura de todos os tipos, tal como aconteceu na recessão de 2007. Embora a administração Obama tenha falado sobre projectos "prontos a arrancar" ao promover a sua legislação de estímulos putativos, a realidade foi que muito pouco dinheiro foi gasto em infra-estruturas, devido aos longos atrasos envolvidos na implementação desses projectos.

 

O Congresso dos EUA e a Casa Branca deveriam começar agora a desenvolver um inventário de projectos de infra-estrutura que poderiam ser implementados quando a economia desacelerar. Se não houver desaceleração nos próximos anos, seria na mesma desejável iniciar alguns desses projectos.

 

Outra forma de usar os gastos para estimular a economia seria aumentar as despesas em defesa. Uma regra da Lei de Controlo Orçamental de 2011 impõe que o nível de despesas com a defesa diminua de 4,3% do PIB em 2012 para apenas 2,8% do PIB em 2023, a menor percentagem do PIB desde a Segunda Guerra Mundial. Os especialistas em defesa concordam que esse nível é muito baixo para as necessidades da América. Um aumento dos gastos para 4% ou mais do PIB seria uma fonte significativa de aumento da procura global e um contributo crucial para a segurança nacional.

 

O nível elevado da dívida nacional - cerca de 77% do PIB agora, e a caminho de 97% no final dos próximos dez anos - criaria uma forte resistência a cortes de impostos ou aumento dos gastos. Mas uma desaceleração económica significativa que desse pouca margem de manobra à Fed deixaria o Congresso com poucas opções.

 

A necessidade de estímulos orçamentais futuros deixa claro que os EUA precisam de começar a desenvolver agora uma estratégia para diminuir o crescimento da dívida nacional. Essa é a única maneira de criar espaço suficiente para a política orçamental expansionista que a economia acabará por precisar.

 

Martin Feldstein, professor de Economia na Universidade de Harvard e presidente emérito do Departamento Nacional de Investigação Económica, presidiu ao Conselho de Assessores Económicos do Presidente Ronald Reagan de 1982 a 1984.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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