Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 22 de agosto de 2017 às 20:30

Os tribalistas

Numa democracia comunitária, todos os interesses legítimos serão tendencialmente reconhecidos. Numa democracia identitária, todos os interesses legítimos estão em risco de silenciamento.

Mark Lilla, professor da Universidade de Columbia, é um comentador político "liberal" (no sentido americano de "esquerdista") que acaba de editar o livro "The Once And Future Liberal: After Identity Politics". Enquanto a obra não me chega, li (e recomendo) o seu artigo que instigou o livro, publicado no New York Times na sequência da eleição de Donald Trump ("The End of Identity Liberalism", 18.11.2016), e a entrevista que deu na semana passada à revista The American Conservative ("Mark Lilla Vs. Identity Politics", 16.08.2017).

 

Lilla fala-nos do estado da democracia representativa americana - que, em boa medida, é o da generalidade das democracias ocidentais -, e de como ela se foi transformando numa terra devastada por ressentimentos inconciliáveis.

 

Lilla sente-se na obrigação de "policiar" os exageros do seu próprio lado (e pede à direita que faça o mesmo), daí que a sua Némesis seja aquilo a que chama "liberalismo identitário": a política como mera afirmação de direitos de determinados grupos, bem definidos e homogéneos.

 

É certo que esse movimento foi muito importante, por exemplo, na emancipação das mulheres e das minorias sexuais e raciais. Mas Mark Lilla interessa-se por mostrar também os limites e perigos da agenda puramente identitária.

 

O que o preocupa é o facto de o movimento progressista moderno ter substituído a ideia de "comunidade" pela de "diferença". Sem a "comunidade", enquanto conceito político nuclear, a política progressista não faz sentido. Isto é, a "comunidade" (o "nós democrático universal") é que é a "identidade" política fundamental, aquela que deve prevalecer e enquadrar todas as outras. Um cidadão cuja relevância política se esgota na sua própria circunstância não é bem um cidadão.

 

Por culpa destes novos progressistas (e não só), a democracia representativa transformou-se numa democracia tribalista: deixou de ser um processo de persuasão e conversação, de compromisso e síntese entre ideias opostas sobre a mesma identidade comunitária (por muito abrasivo e frustrante que esse processo possa ser), para degenerar num combate fatal entre identidades distintas (a cor da pele, a orientação sexual, a origem geográfica, a filiação ideológica, a fidelidade partidária).

 

Numa democracia comunitária, todos os interesses legítimos serão tendencialmente reconhecidos. Numa democracia identitária, todos os interesses legítimos estão em risco de silenciamento.

 

Os progressistas clássicos, que apelavam a ideais colectivos agregadores - a cidadania, a solidariedade, a coesão social, o Estado-providência -, foram ultrapassados pelos progressistas identitários. Estes ajudaram a transformar a democracia num jogo largamente proclamatório e estéril, uma gritaria entre grupos e indivíduos fechados sobre si mesmos, atomizados no seu desinteresse pela persuasão de maiorias, na sua indiferença aos temas políticos que dizem respeito aos outros (que não conhecem nem reconhecem), e que preferem expressar uma razão de queixa a demonstrar uma razão para a mais pequena mudança.

 

As trincheiras que se cavaram nos países ocidentais, tão fundas quanto artificiais, estão a destruir os sentimentos comunitários de que depende qualquer democracia. A culpa não é só da esquerda, obviamente, mas do meu lado falarei noutra ocasião.

 

Advogado

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