Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 12 de fevereiro de 2018 às 10:24

Os ursos saíram da toca

Achar que alguém tem a explicação para o que sucede no mercado é conhecer pouco do que é este bicho.
Há duas semanas, neste mesmo espaço de opinião, escrevi um artigo em que defendia ser tempo para uma correcção de curto prazo. Nesse mesmo dia, a bolsa portuguesa iniciou uma violenta correcção que levou o PSI a perder cerca de 8% em apenas sete sessões, acompanhando uma tendência de quedas fortes que ocorreram nos principais mercados accionistas mundiais.

Nestas ocasiões surgem inúmeras explicações sobre o que esteve na génese destas quedas violentas. Uns dizem que foi por receios da inflação e política monetária nos Estados Unidos e outros até atribuem a responsabilidade aos supercomputadores. O que não faltam são as tradicionais justificações à posteriori. Basta puxar pela cabeça e conseguiremos sempre encontrar algo que assente bem. Não serei eu que encontrarei a justificação mágica para tal. Achar que alguém tem a explicação para o que sucede no mercado é conhecer pouco do que é este bicho. Aquilo que vos posso assegurar é que, quando há duas semanas defendi uma correcção na bolsa portuguesa, tal se deveu única e exclusivamente ao facto de o mercado estar demasiado esticado e, normalmente, quando os indicadores atingem estes níveis antecedem uma correcção.

Apesar de ter defendido que uma correcção estava aí à porta, confesso que não esperava que fosse tão violenta. Não é normal que o PSI caia tanto em tão pouco tempo e isso é algo que tem de ser salientado. Há duas semanas, escrevia que esperava uma retracção e que ela era bem-vinda porque os "bull markets" são feitos também de correcções que fazem refrear o optimismo e permitem a entrada de novos investidores. Será que mantenho o mesmo estado de espírito depois da violência destas correcções?

Não há qualquer sinal de que o "bull market" tenha chegado ao seu fim, mas esta demonstração de força dos ursos merece ser considerada. Até prova em contrário, considero qualquer correcção num "bull market" como apenas uma retracção. Um dia estarei enganado, é assim a vida dos seguidores de tendências. Mas o importante é continuar a definir quais os valores que não podem ser quebrados para que o "bull market" permaneça intacto. Para despir o meu fato de touro de longo prazo é preciso que o PSI quebre consistentemente a zona de suporte entre os 5.050 e os 5.100 pontos. Esse seria um sinal que não poderia ignorar mas, enquanto isso não acontecer, creio ser prematuro declarar a morte dos touros.

E quem está de fora, o que deve fazer nesta correcção? Ou aguardar uma retracção até perto da zona de suporte que considerei como decisiva ou esperar por uma ruptura em alta da zona entre os 5.450 e os 5.500 pontos. Aliás, para os touros voltarem a ganhar o controlo da situação no curto prazo essa é a zona a ser quebrada para provarem que o que assistimos foi apenas mais uma correcção no "bull market".

A discussão sobre o final desta tendência de alta de longo prazo é muito mais acesa nos outros mercados do que em Portugal. Enquanto o domínio dos touros na bolsa nacional tem menos de dois anos, nos principais mercados internacionais o "bull market" vai a caminho do seu nono aniversário! E esta é uma situação singular, com uma bolsa que ainda recentemente começou a subir com receio de estarem a chegar ao fim os tempos dourados de mercados que sobem há quase 10 anos. O importante é continuarmos focados no gráfico do PSI. Porque de nada nos valeu que as bolsas mundiais começassem a subir, enquanto o gráfico do principal índice português continuava sem sinais de força há alguns anos. Foi estranho andar tantos anos com o fato de urso vestido na bolsa portuguesa e com o resto do mundo a subir, mas fui fiel ao que o gráfico português indicava e, desta vez, não será diferente. É o suporte entre os 5.050 e os 5.100 pontos que marca a minha fronteira entre o "bull" e o "bear market" e essa objectividade permite que me consiga alhear a todas as emoções que estes dias de montanha-russa provocam.

Há duas semanas, quando escrevi o artigo em que defendia uma correcção de curto prazo estava longe de imaginar que ela se iniciaria nesse mesmo dia e que a violência fosse de tal ordem que me leva a considerar uma primeira vitória dos ursos. Mas, em bom rigor, precisam de mais vitórias destas para contrariar o poder dos touros. Por mais paradoxal que possa parecer, são estes momentos de tensão no mercado e de elevada volatilidade que fazem com que o mercado de capitais continue a ser um local para onde todas as câmaras e luzes apontam.

É importante que as luzes e as câmaras não nos encandeiem. É importante que a adrenalina da montanha-russa das cotações não nos faça perder a lucidez. E é por isso que, à priori, escrevo sempre o que me faz mudar de ideias. Porque, no momento, tudo isso pode toldar-nos o pensamento e a razão passa a ser apenas um grão de areia perdido no deserto da emoção. Para já, os ursos deram um tiro num barco dos touros. O porta-aviões está situado entre os 5.050 e os 5.100 pontos. Até que isso aconteça, são os touros que mandam neste mar agitado.

(comente aqui o artigo de Ulisses Pereira)



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