Leonel Moura
Leonel Moura 13 de Outubro de 2016 às 20:25

Os novos luditas e o futuro

O modelo de governação continua a não ter nenhum mecanismo de previsão ou análise de tendências. O futuro chega sempre como uma grande surpresa. Estamos mesmo a precisar de um modelo Uber para os governos.

Os taxistas têm razão. A Uber está a destruir um negócio com décadas de existência, a eliminar rendimentos e postos de trabalho. Por isso protestam.

 

 

Os taxistas representam um tipo de revolta que se vai tornar frequente no futuro próximo. Uma revolta contra a evolução tecnológica.

 

Não é a primeira vez que acontece. A introdução das máquinas a vapor, no início do século XIX, levou ao despedimento de muitos operários da indústria têxtil inglesa. Esse processo desencadeou uma revolta que durou anos, bastante violenta, que se dedicou à destruição das máquinas e ao ataque contra patrões e outros intervenientes na modernização industrial. O movimento ficou conhecido por Luditas, designação normalmente atribuída a Ned Ludd que terá sido pioneiro ao destruir uma máquina em finais do século XVIII.

 

A revolta dos taxistas representa a emergência, entre nós, dos luditas do século XXI. No entanto, tal como os seguidores de Ned Ludd, ainda que possam provocar algum desgaste conjuntural, não terão sucesso na luta.

 

As novas tecnologias não só exterminam as velhas, há quem fale de destruição criativa, como uma vez desenvolvidas tornam-se irremediáveis, ou seja, não há maneira de as evitar. Tanto mais que para além do suporte tecnológico muitas das vezes são os próprios conceitos e modelos que mudam radicalmente. A Uber não é simplesmente uma plataforma para se chamar um carro. A Uber é um novo modelo de negócio que veio para ficar. Um modelo que desregula as relações de trabalho, instala uma precarização radical, mas responde a um contexto que aceita e beneficia com esse "mal social". De outro modo não teria sucesso.

 

Por isso, tal como no século XIX, a luta dos taxistas falha o alvo. Ao atacarem os motoristas da Uber e destruírem os seus carros mostram que não estão a perceber aquilo que realmente se está a passar. Estamos a caminhar para uma sociedade com um novo conceito de trabalho, sem vínculos nem direitos, mas também sem deveres de obediência, horários ou exclusividade. Estamos a caminhar para uma sociedade de autoemprego, onde o trabalho é flexível, líquido, adaptativo. O motorista da Uber configura esse novo trabalhador. No futuro quase todo o trabalho será assim.

 

Mais do que os taxistas, vítimas da sua incompetência, mau serviço e ainda pior gestão do problema, esta luta vem mostrar como os governos também não estão preparados para a inovação. Citam muito a palavra, promovem o conceito, mas não sabem o que fazer quando uma verdadeira inovação aparece. Foi assim com a internet e é hoje com tanta coisa.

 

O modelo de governação em vigor, de esquerda ou de direita, está obsoleto, ultrapassado, incapaz de reagir à complexidade dos problemas que o desenvolvimento tecnológico coloca todos os dias. A governação entende-se sobretudo como produção de legislação. Mas esta ou é incompleta, não abrangendo todos os aspetos da questão, ou fica de imediato ultrapassada dada a velocidade das mudanças. Uma nova lei gera frequentemente um novo problema.

 

Esta incapacidade em lidar com a inovação ficou demonstrada na atual crise dos táxis. O Governo mudou várias vezes de posição, vai prometendo coisas inconciliáveis aos taxistas e à Uber. Procura agradar a todos, não agrada a ninguém.

 

Governar hoje resume-se a respostas conjunturais. O modelo de governação continua a não ter nenhum mecanismo de previsão ou análise de tendências. O futuro chega sempre como uma grande surpresa. Estamos mesmo a precisar de um modelo Uber para os governos.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Univ Há 2 semanas

Afinal os taxis também já têm uma App de nível mundial, igual à da uber e 100% portuguesa. Segundo os engenheiros portugueses, a mesma tem mais funcionalidades e conta também com direito a avaliação (5 Estrelas) e comentários no final de cada corrida ( www.taxi-link.com ).