João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 09 de maio de 2017 às 19:22

Outro Presidente no fio da navalha

Aplacar Pequim, entender-se com Washington e evitar uma guerra com Pyongyang são desafios imediatos que escassa margem de manobra deixam ao novo Presidente da Coreia do Sul.

Levar Xi Jinping a levantar as sanções comerciais e o boicote turístico impostos após a instalação do sistema norte-americano de antimísseis balísticos (THAAD) na Coreia do Sul por alegada vigia radar intrusiva do território chinês é essencial para Moon Jae-In concretizar promessas de reformas económicas.

O boicote a produtos sul-coreanos e a quebra acentuada de entradas de turistas chineses terão de ser ultrapassadas para Moon tentar acelerar o ritmo de crescimento da economia (cerca de 2% desde 2013) de forma a reduzir o desemprego juvenil que ronda os 8% e representa o dobro da média nacional.       

 

Melhorar o desempenho económico, que a par do combate à corrupção surge entre as principais preocupações nos inquéritos à opinião pública, obriga, contudo, a um compromisso político com Pequim, principal parceiro comercial, sem alienar Washington, garante de segurança.

 

Os excedentes comerciais que a Coreia do Sul mantém com ambos os países complicam as negociações e Moon, opositor declarado à instalação do THAAD, admitiu recentemente ser demasiado tarde para desmantelar o sistema antimíssil  acordado entre Washington e a sua predecessora Park Geun-Hye no ano passado.

 

A Coreia do Norte intromete-se como problema intratável dado o autoproclamado fim da "paciência estratégica" dos Estados Unidos e a ameaça de Trump recorrer à força para impedir a ampliação e avanço do programa militar nuclear e de mísseis balísticos da Coreia do Norte.

 

A China propõe uma moratória para testes nucleares e de mísseis norte-coreanos em paralelo com a suspensão de exercícios militares na Coreia do Sul, onde os EUA mantêm um contingente de 28 mil e 500 homens, tendo-se esquivado até agora à imposição de sanções que levem ao fim das suas compras de carvão a Pyongyang e ao corte dos abastecimentos de petróleo.

 

Apesar dos desentendimentos crescentes com Kim Jong-Il, a China pretende, tal como a Rússia, evitar que a derrocada do regime redunde na unificação da península sob controlo de Seul e subsequente reforço do sistema de alianças militares de Washington no Extremo Oriente.

 

O risco de guerra ou dispersão de arsenais químicos e biológicos é real e também temido pelo Japão que mantém relações tensas com Seul por não assumir as responsabilidades de Tóquio na prostituição forçada de mulheres durante os anos da guerra do Pacífico e devido ao contencioso da ocupação nipónica da península (1910-1945).

 

A política de abertura e cooperação com Pyongyang iniciada por Kim Dae-Jung em 1988 e prosseguida pelo sucessor Roh Moo-Hyun - os anteriores Presidentes de centro-esquerda eleitos após a democratização iniciada em 1987 - volatilizou-se com o primeiro teste nuclear norte-coreano em 2006.

 

Moon diz-se disposto a negociar com Kim Jong-Un e a retomar os investimentos na Zona Industrial de Kaesong - parque industrial para empresas do Sul empregadoras de mão-de-obra local, situado dez quilómetros a norte da Zona Desmilitarizada e encerrado desde Fevereiro de 2016 -, apesar das sanções da ONU.

 

A maioria de direita e centrista na Assembleia Nacional eleita em Abril de 2016 por quatro anos e que não pode ser dissolvida pelo chefe de Estado opõe-se a esta pretensão.

 

Por outro lado, dificilmente haverá acordo com um Presidente de centro-esquerda para reformas constitucionais (revisão do mandato único presidencial de cinco anos e redução dos poderes do chefe de Estado) que exigem maioria de 2/3 antes de serem referendadas pelo eleitorado.

 

A discórdia alarga-se a projectos para desmantelar os conglomerados controlados por dinastias empresariais ("chaebol"), considerados obstáculo monopolista à inovação e factor de corrupção, evidente, por exemplo, no envolvimento da Samsung em actos ilícitos no caso de Park destituída em Março e levada este mês a julgamento.

 

Moon, homem pouco dado a compromissos, já passou por momentos difíceis e em 2009 coube-lhe anunciar o suicídio do Presidente Roh Moo-Hyun de quem era chefe de gabinete.

 

De hoje para a frente Moon está no fio da navalha.         

 

Jornalista

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