António Moita
António Moita 20 de abril de 2017 às 20:05

Pagar juros até morrer

Desgraçado país este em que todo o acréscimo de riqueza que conseguirmos gerar durante as próximas décadas servirá apenas para pagar os juros de uma dívida que herdámos sem que algum dia nos tenham perguntado se a queríamos assumir.

O Programa de Estabilidade e Crescimento, se fosse para levar a sério, implicaria a consensualização de reformas fundamentais e a continuação de sacrifícios em nome de um bem maior. Consenso não parece ser possível. Sacrifícios não serão para os próximos tempos.

 

No Parlamento, falou-se de aumento das prestações sociais, de subida do salário mínimo, de reforço do quadro de pessoal da administração pública, de aplicação de fundos comunitários através das autarquias. Sempre Mais Estado em nome de Melhor Estado.

 

Fazer crescer desta forma a despesa pública sem prejudicar as metas do défice tem como implicação imediata a renúncia a outro tipo de despesa ou o aumento da receita por via fiscal. Mas como ninguém quer falar em cortar - exceto no investimento público - presume-se que a solução esteja no aumento dos impostos, a saber, através dos novos escalões do IRS, de uma "derrama" para as grandes empresas ou de qualquer outro mecanismo de tributação inovador.

 

A política de redução do défice tão simpática para Bruxelas, é incompatível com mais Estado, mas deve assentar numa administração redimensionada, mais próxima, mais eficaz, mais produtiva. Sobre isso também ninguém quer falar.

 

Cada português sabe que durante toda a sua vida não fará outra coisa que não seja pagar impostos. E sabe também que uma parte muito significativa deste "esbulho" é aplicada no pagamento dos juros de uma dívida eterna contraída para financiar o equilíbrio do sistema financeiro e projetos não rentáveis que além de não serem sustentáveis geram ainda mais encargos.

 

A geração que sempre pagou, mas que não sabe se irá algum dia receber tem de mudar isto. De preferência antes que chegue o dia do juízo final.

 

Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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José casaca 23.04.2017

Ainda antes de termos resgatado o sistema financeiro, já o excesso de pensões milionárias nos andava a sugar o tutano. A nossa iliteracia política tem feito com que os detentores dos direitos adquiridos pela constituição de Abril, pilares do atual regime, não deixem pedra sobre pedra para o futuro

manueladeornelas 21.04.2017

Ainda bem que, como já sou bastante idosa, já não terei muitos anos para pagar. Coitados dos menos jovens, jovens e crianças que herdam esta situação desgraçada que os espera.

Filipe Durão 21.04.2017

"Quando 40 anos houverem passado terás pago o dobro, após 60 anos triplo: no entanto, permanece devedor do capital inteiro."
— Montesquieu

Filipe Durão 21.04.2017

"Como são feitos os empréstimos? Pela emissão de obrigações que impliquem ao Governo na obrigação de pagar juros proporcionais ao capital que tenha sido tomado. Assim, se um empréstimo é de 5%, o Estado, depois de 20 anos, pagou uma quantia igual ao capital emprestado."

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