Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 05 de Dezembro de 2016 às 21:05

Paixões tristes

A pós-verdade é um jogo de sombras para esconder os corpos, é a invocação da virtude para ocultar o pecado: é impensável que quem reverte o ajustamento tenha sido o culpado dos erros que exigiram o ajustamento.

A FRASE...

 

"Para a história futura é muito relevante saber, por exemplo, quem propôs determinadas medidas na anterior legislatura: o Governo ou a troika?"

 

José Pacheco Pereira, Público, 26 de Novembro de 2016

 

A ANÁLISE...

 

Os editores dos dicionários Oxford escolheram para "palavra do ano" 2016 a "pós-verdade".  Não se confunde com mentira, também conhecida como "não-verdade". Pós-verdade é o que está depois da verdade. Sendo a verdade o que é, a pós-verdade distorce o que é - um esforço para não ter de aceitar o que a verdade revela. É um imaginário triste, uma paixão triste, um último pretexto para adiar o inevitável.

 

Na passada semana, a Comissão Europeia publicou a sua apreciação do programa de auxílio a Portugal "Ex Post Evaluation of the Economic Adjustment Programme, Portugal 2011-2014", depois de exercício idêntico ter sido publicado pelo FMI em 16 de Setembro. Estes dois textos são devastadores para os protagonistas políticos, económicos, sociais e culturais portugueses, explicando muito bem quem propôs determinadas medidas na anterior legislatura, se o Governo, se a troika. Mas também revelam a perplexidade dos observadores externos quando verificam que o ajustamento não foi concluído, que os factores geradores dos desequilíbrios continuam activos e que, apesar disso, os que ocupam os lugares do poder não se preocupam e até consideram que devem reverter as medidas de ajustamento que não foram finalizadas. A pós-verdade é um jogo de sombras para esconder os corpos, é a invocação da virtude para ocultar o pecado: é impensável que quem reverte o ajustamento tenha sido o culpado dos erros que exigiram o ajustamento.

 

A pós-verdade não resolve o paradoxo triste dos soberanistas. Repudiam as recomendações dos observadores externos em nome da vontade nacionalista, mas condenam-se aos desequilíbrios do distributivismo e à estagnação da economia. Terão de aceitar as políticas de contracção da despesa logo que secarem as fontes da extracção fiscal e da dívida externa.

  

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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come nada Há 1 semana

Muito bom