David Bernardo
David Bernardo 01 de agosto de 2017 às 10:30

Palmadas na mão de gigantes

A Google foi multada em 2,4 mil milhões de euros por práticas anticoncorrenciais. No entanto, o que parece ser uma medida exemplar da parte da Europa para corrigir o abuso de poder não é mais do que uma palmadinha ao final de sete anos de processo.

Como não conseguimos competir, multamos e fazemos leis (mal pensadas). Vamos ver resultados passados destas medidas: indústria da música vs. música digital (mp3); hotéis vs. Airbnb;  táxis vs. Uber. Apesar das medidas de coação, as indústrias tradicionais perdem quase sempre. Os bancos e as seguradoras estão a passar por temas semelhantes com as "fintech" e "insurtech". A nível global, o Velho Continente não conta com nenhuma das "grandes empresas de tecnologia". Os EUA têm a Alphabet (Google), Amazon, Facebook, Apple, Netflix, Microsoft. A China, que tem bloqueado a concorrência local, ao nível de tecnologia tem a Alibaba e a Tencent (entre outras pouco conhecidas do público). A Europa o que tem? A competitividade está cada vez mais em causa.

 

Vamos ver as quatro empresas dominantes no mundo de "tech" no momento. Cada uma começou por um lado: Amazon com "e-commerce", Google com "search", Facebook com redes sociais e Apple com "hardware". No entanto, já todas estão a competir nas mesmas áreas. Porquê? Porque conhecem o cliente, não têm o peso dos processos e sistemas das indústrias tradicionais e podem investir grandes quantidades de dinheiro, contam com sistemas de última geração, economias de escala e acima de tudo sabem tratar dados. Talvez mais importante que tudo, a combinação de todos estes atributos (não só os escritórios fantásticos com comida grátis) permite-lhes atrair algumas das melhores mentes do mundo. Numa época em que os dados são ouro, mais do que um negócio, criam-se ecossistemas completos em torno da experiência do cliente. Estas são as primeiras empresas realmente globais da História. Nunca tivemos instituições desta dimensão e com tantas sinergias. A própria Igreja Católica, uma das instituições com mais êxito da História da humanidade, com 1,3 mil milhões de seguidores, foi já ultrapassada pelo Facebook, com 2 mil milhões de utilizadores ativos todos os meses. Continuamos erradamente a chamar estas empresas de "tecnológicas", mas a verdade é que já não são empresas tecnológicas. Estão a entrar em todos os setores da economia. A tecnologia é apenas uma ferramenta já totalmente integrada nos modelos de negócio.

 

"Faz parte da evolução e quem não se adapta morre." "Passou ao longo da História e continuará a passar." Estou de acordo. Na verdade, a maioria das empresas não tem noção dos riscos que corre, e a estratégia de muitas empresas parece ser a da avestruz (esconder a cabeça na areia e fingir que assim nada lhes vai acontecer). Mas acho que há que ter atenção às consequências para a sociedade. Estamos a falar do encerramento de muitas empresas, um aumento provável de desemprego (com automatização) e de um agravar de diferenças sociais. Quando combinamos estes temas com ferramentas que podem ser usadas para o "bem", mas com grande capacidade de destruição em escala (inteligência artificial, armas com capacidade de decisão, etc.), temos de ter muito cuidado.

 

A ideia não é parar o futuro ou matar estas empresas que são "más", o objetivo é preparar a sociedade o melhor possível para o que aí vem. E isto faz-se com educação e estratégia, em vez de penalizações, e com proatividade em vez reatividade. 

 

Partner litsebusiness.com e professor de e-commerce e marketing digital na Nova SBE 

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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