João Silva Lopes
João Silva Lopes 01 de fevereiro de 2017 às 20:25

Pancadaria portuguesa

A polémica espoletada pelas declarações do CEO da Padaria Portuguesa com a pronta e enérgica reacção de deputados do PS e do Bloco de Esquerda é mais do que espuma no mar das redes sociais e reflecte o clima que se vive no país.

É incontornável admitir que o objectivo da "descrispação" foi atingido, mas impõe-se agora perceber que tipo de crispação estamos a falar: a política ou a económica, e qual das duas, afinal, será mais relevante para os portugueses para o país?

 

Além deste episódio das declarações do CEO da Padaria Portuguesa, outros se avolumam na sociedade portuguesa: a controvérsia ideológica em torno do adicional do IMI, as diferentes opiniões sobre a nacionalização ou não do Novo Banco, a discussão sobre as PPP no sector da saúde, a possibilidade de reversão das medidas de flexibilização laboral ou a renegociação da dívida são apenas alguns exemplos.

 

Esta crispação não é uma "crispação política", mas sim uma "crispação económica" - sobre o modelo económico que se quer para o país - e marca um fosso na sociedade portuguesa mais profundo e com consequências mais graves do que a mera "crispação política" que preocupa o Presidente da República.

 

E isso facilmente se pode constatar também numa maior crispação na sociedade portuguesa que já se sente entre empresas, entre bancos, entre concorrentes aos (poucos) procedimentos concursais promovidos pelo Estado...

 

Este ambiente de "crispação económica" não aparece nos noticiários, nem nos jornais - que aparentemente dão mais relevo à "crispação política" -, mas emerge na vida das empresas e dos cidadãos, criando um clima pouco propício ao investimento e à criação de emprego qualificado.

 

A nova vaga digital em curso, designada por 4.ª Revolução Industrial, prevê a criação de oportunidades de criação de emprego nas diferentes áreas tecnológicas da Internet das Coisas, da inteligência artificial, da computação na nuvem, na genómica, nos veículos autónomos, nas tecnologias limpas ou nas energias renováveis.

 

Esta revolução tecnológica - que não é do futuro e já está aí - provocará a falência dos antigos modelos de gestão obsoletos baseados em trabalho pouco qualificado e sustentado em regras laborais rígidas e cria desafios ao modelo económico e ao mercado de trabalho.

 

Este novo modelo baseia-se numa economia de rede, agregadora, da partilha, em que os diversos agentes comungam de interesses nas áreas do conhecimento, da educação, da investigação e da inovação e que só um clima de "descrispação económica" permitirá espoletar.

 

A "crispação económica" que se vive actualmente em Portugal constitui um claro obstáculo para o sucesso do país no aproveitamento da revolução tecnológica em curso.

 

Dito isto, importa perceber a razão desta "crispação económica": independentemente de conjecturas políticas que podem aguçar o apetite para discussões mais ideológicas, o cerne da questão está na falta de investimento, público e privado, nacional e estrangeiro, de que o país padece.

 

Só o investimento possibilitará o crescimento económico que permitirá que os agentes económicos reduzam as tensões e se foquem em novas oportunidades e não na distribuição do exíguo "bolo" existente...

 

Sem investimento, a concorrente mais forte para palavra do ano em 2017 será "crispação económica".

A que interessa resolver! 

 

Advogado

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comentários mais recentes
antunano 02.02.2017

Já tenho escrito algo que se assemelha a este artigo, mas dou os parabéns ao autor deste crónica por ter dito tantas verdades que , infelizmente , o nosso PR ainda não viu nem parece estar interessado em ver nem ler. Dito de outra maneira, se tivéssemos um PR que soubesse o que anda a fazer e os ve

Maria 02.02.2017

Não percebo como é que o autor do "artigo" se refere ao «CEO da Padaria Portuguesa», quando quem falou pela dita Padaria Portuguesa, nem gerente era da dita Padaria. Não era gerente, mas, para o autor é CEO....que coisa chique!!!

Anónimo 02.02.2017

A sorte dos políticos portugueses é terem nascido numa bolha da classe média alta, 3º geração de FP e poderem dar-se ao luxo de abraçar fanatismo ideológico e guerrinhas politicas, o azar de boa parte dos portugueses que eles governam é não terem nascido na mesma situação.

Anónimo 02.02.2017

"Espoletar" não é o contrário de «despoletar». São palavras diferentes. É uma utilização espúria da palavra naquele contexto. Enquanto que "espoletar" significa "colocar espoleta em" (por exemplo, numa espingarda); "despoletar" significa, no sentido figurado, "desencadear", "provocar" uma acção.

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