Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 20 de julho de 2017 às 00:01

Para além de bem e mal

Uma injecção (mesmo de capital) não resolve uma doença terminal. Onde ninguém confessa nem se arrepende não se muda de vida e o que ressuscitar será igual ao que morreu.

A FRASE...

 

"Se o BES tivesse tido uma injeção de capital de cinco mil milhões de euros, hoje estaria são como um pero."

 

Pedro Santos Guerreiro, Expresso, 15 de Julho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Nos assuntos da ética e da moral, não pode haver absolvição e perdão sem que tenha havido confissão e arrependimento. A confissão é necessária para que se fique a saber qual foi o processo que conduziu à falta, à culpa ou ao crime. O arrependimento é o complemento da confissão, é o reconhecimento de que o que se fez não tinha justificação.

 

Nos assuntos da política e da economia, não há confissão nem arrependimento. A absolvição será procurada nas eleições seguintes e na contabilidade inteligente dos próximos balanços ou na valorização hábil dos activos e das cotações. O eleitorado e os mercados têm o poder de absolver e perdoar - mas é preciso que o culpado não confesse nem se arrependa, porque se o fizer não voltará a ter a confiança dos eleitores e dos mercados. Na política e na economia, a culpa é sempre dos outros ou, quando os outros não são nomeáveis, é o efeito das circunstâncias, do destino.

 

Uma injecção (mesmo de capital) não resolve uma doença terminal. Onde ninguém confessa nem se arrepende não se muda de vida e o que ressuscitar será igual ao que morreu. O que aconteceu no BES (e na CGD) é o mesmo que aconteceu na política e na economia. E não poderia deixar de ser assim. Os erros de estratégia na função política geraram os erros de avaliação (ou de ocultação) do risco na função financeira, e a cumplicidade interessada dos políticos foi premiada com a colaboração empenhada dos banqueiros. Este não é um assunto de ética e de moral, é um assunto de política e de economia.

 

Se o BES tivesse tido uma injecção de capital (e até teve), estaria hoje ainda mais doente do que já estava, porque ninguém confessou ou se arrependeu. E se há sempre um paquete que leva a mala com as notas, o que tem de se procurar é quem é o dono do dinheiro que vai na mala. É ele quem comanda, para bem ou para mal, a dinâmica da política e da economia.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
nin 20.07.2017

É triste ver o Pedro Guerreiro, que até já foi director deste jornal, tornar-se num propagandista a soldo de quem der mais.
Quando o ordenado não chega para o estilo de vida todas as avenças são bem-vindas. Mas é triste.

Nuno 20.07.2017

Comparar uma doença terminal com uma situação dum banco é de facto uma ideia brilhante. Fosse a frase deste senhor e teríamos: vão-se os dedos mas fiquem os anéis.

surpreso 19.07.2017

Os tugas terão uma morte suave e feliz